Será que só humanos apegam-se a coisas? Parece que há um pássaro que também coleciona objetos, não precisa deles para viver, o faz como colecionador, sei lá se os admira em sua casa-ninho ou atende apenas ao impulso de pegar, como os compradores compulsivos. Este pássaro teria o nome de pêga, “gazza” em italiano, donde Rossini teria feito “La Gazza Ladra” e donde Hergé escreveu mais uma aventura de Tintim, “As Jóias da Castafiore”, com sustentação no pássaro e na ópera.
Voces gostam de Tintim? Pra quem gosta, como eu, uma ótima notícia: Steven Spielberg e Peter Jackson (do Senhor dos Anéis) estão trabalhando – não sei qual vai fazer o quê – pra levar pro cinema “As Aventuras de Tintim”.
Voltando ao tema, isto de apegar-se a coisas mesmo sem saber porquê já rendeu cenas memoráveis no cinema. Em “Blow-Up”, no Brasil censurado da ditadura militar passaria em alguns lugares, mutilado, com o título “Depos Daquele Beijo”, Michelangelo Antonioni coloca a personagem principal, o fotógrafo David Hemmings, numa briga com algumas pessoas, à saída de um show de rock. Disputavam a socos e pontapés o braço da guitarra que um dos membros da banda havia quebrado no palco e jogado para a platéia. David ganha a disputa e sai com seu troféu. Caminha uns dez metros segurando-o, olha-o e em seguida joga-o fora. Por que brigou? Prazer da disputa? Também foi seguir um primeiro impulso, de querer o que vê?
Apropriamo-nos de objetos e de momentos, de pessoas, de sentimentos, de tanto, que sequer nos damos conta. Tudo fonte de prazer – e de problemas, a saber, dor. Mas, vá saber livrar-se disto. Até o Dalai Lama quer o Tibet para os tibetanos, no que aliás acho que está muito certo.
Os casais de namorados têm seu filme, sua canção, seus lugares, suas datas. Cazuza foi genial quando escreveu, em “Codinome Beija-Flor”: “(…)a emoção acabou, que coincidência é o amor, a nossa música nunca mais tocou (…)”. Nesta canção o sentimento de posse vai tão longe que ele chega a pedir pro ser outrora amado que ” (…) não responda nunca, meu amor, nunca, a qualquer um na rua, beija-flor (…)”. Este casal da canção tinha as “suas” palavras.
Dois dos melhores filmes para serem os “nossos” filmes dos namorados são, pra mim, do cineasta Jacques Demy, “Les Parapluies de Cherbourg” e principalmente mas menos famoso “Les Demoiselles de Rochefort”, respectivamente “Os Guarda-Chuvas do Amor” e “Duas Garotas Românticas”.
Todos os dois são como que óperas com música popular – Michel Legrand – e são cantados do comêço ao fim, causa uma certa estranheza em quem assiste pensando encontrar um musical no estilo dos de Hollywood, como o “West Side Story” que falei ontem. São carregados de poesia, inesquecíveis.
No primeiro a gente tem Catherine Deneuve com então 21 anos de idade, mais belíssima do que belíssima sempre foi e é. Há uma canção deste filme que ficou famosa no mundo inteiro, teve versões pra tudo quanto foi lado, nos Estados Unidos foi lançada como “I Will Wait For You”, e aqui chegou com este nome, com gravações de Frank Sinatra pra cima. Aliás se alguém conhecer a versão daqui do Brasil agradeço a informação. Minha canção favorita é uma outra, “Récit de Cassard”, também ganhou o mundo com um título em inglês, “Watch What Happens”.
No segundo filme volta Catherine, já com 24 anos e com sua linda irmã – no filme e na vida real – Françoise Dorléac. O elenco é fabuloso, cheio de estrelas do cinema francês e uma do cinema norte-americano.
Aviso de utilidade pública: se voce é que nem eu, não suporta que te contem final de filme, pule o parágrafo seguinte, é que só vai fazer sentido tudo que escrevi até aqui se eu contar o final de “Duas Garotas Românticas”. Depois que voce assistir, leia e veja se concordamos.
“Duas Garotas Românticas” conta as histórias de três amores. Uma, de um casal – Daniele Darrieux e Michel Piccoli – que separou-se muito tempo atrás e procura reencontrar-se. Conseguem. Outra, de uma das irmãs, que é música e que encontra seu par – Gene Kelly – antes do final do filme. A terceira, de um pintor ora marinheiro, que procura a mulher ideal e a pinta. Este retrato é exatamente o retrato da outra irmã – Catherine Deneuve – que é professora de dança e que ele jamais havia visto. Ela vê o quadro mas não seu pintor, e apaixona-se por ele, através do quadro, mesmo sem nunca tê-lo visto, ouvido, lido, foi através de sua arte. Durante todo o filme uma série de acasos impede-nos de se encontrar. Na cena final, ela está indo embora para Paris de vez, de carona com uma equipe de espetáculos. Ele também está indo embora para uma folga de três dias, depois partirá com seu navio para uma viagem pelo mundo. Nunca se encontrarão, portanto. Vemos, de longe, ele pegar carona no caminhão da equipe. Não fica claro se é o caminhão onde está seu amor. Prefiro pensar que sim. Termina o filme desse jeito, com o final em aberto para cada qual pensar seu final preferido.
Qual foi, é, o filme de voces? A música?
Ocorre-me agora, vai saber, que hoje, em algum par de computadores um casal que vai namorar está lendo este blog neste exato momento.
No futuro se perguntarão: lembra do “nosso” blog?
Feliz Dia dos Namorados pra todo mundo.