Archive for June, 2008

En Voyage

June 17, 2008

Em viagem e sem saber como mandar um cartão postal via blog pra voces, em vez disso conto uma política de prêços interessante que pratica um estabelecimento comercial desta cidade onde ora me encontro.
Estava no cartaz: “Pão com Manteiga: R$ 0,80″. E, abaixo, “Torrada: R$ 1,00″.
Resolvi interrogar o atendente.
 - Por favor, amigo…É só curiosidade. Um pãozinho com manteiga é um pãozinho inteiro, e ainda vai manteiga. Essa torrada custa mais e, me diz, é de um pão inteiro?
 - Não, é uma fatia.
 - Sim?
 - É pão Pullman.
 - Ah…Obrigado.
Ainda não havia nenhum mercadinho aberto, por perto, para eu investigar a quantas anda o prêço dum pacote de fatias de pão. Pullman.

Sugestão musical: “A Estrada e o Violeiro”, Sidney Miller, com ele e com Nara Leão. Alguém se lembra?
Violeiro Sidney: “(…) Minha estrada, meu caminho, me responda de repente, se eu aqui não vou sozinho, quem vai lá na minha frente?”
Estrada Nara   : “Tanta gente tão ligeiro que eu até perdi a conta, mas te afirmo violeiro, fora a dor que a dor não conta, fora a morte quando encontra, vai na frente um povo inteiro (…)”

Bom dia.

Fim do Domingo

June 16, 2008

Ganhei um presente no fim do domingo. A Telma Cristina conseguiu descobrir que canções são aquelas que cantarolei com letra errada e desafinado. Ainda mais, mandou links onde estão as gravações e também mandou as letras. Viva a Telma!

As duas são interpretadas por um grupo que assina “Fala Mansa”. A primeira vai sem o nome dos autores pois não sabemos, é a do risonho e ganhou as ruas com o vendedor de vassouras. A segunda, do sonhador,  nasceu pro mundo sob o patrocínio de “Rastapé” e faz sucesso acompanhada de churros. 

Ladies and Gentlemen, enjoy it!

Rindo à Toa

Tô numa boa
Tô aqui de novo
Daqui não saio
Daqui não me movo
Tenho certeza
Esse é o meu lugar
Ah Ah!…Tô numa boa
Tô ficando esperto
Já não pergunto
Se isso tudo é certo
Uso esse tempo prá recomeçar
Ah Ah!…Doeu, doeu, agora não dói
Não dói, não dói
Chorei, chorei
Agora não choro mais…Toda mágoa que passei
É motivo prá comemorar
Pois se não sofresse assim
Não tinha razões prá cantar…Há Há Há Há Há!
Mas eu tô rindo à toa
Não que a vida
Esteja assim tão boa
Mas um sorriso ajuda a melhorar
Ah Ah!…E cantando assim
Parece que o tempo voa
Quanto mais triste
Mais bonito soa
Eu agradeço por poder cantar
Lalaiá Laiá Laiá Iê!…

 

Colo de Menina

 

A lua quando brilha fala de amor
No gingado desse xote sinto teu calor
À noite acordado sonho com você, iê, iê, ê, ê
O som ligado e fico perturbado
Sem ter o que fazerE tento sair dessa rotina
Não quero, não, colo de mamãe
Só quero colo de menina
E pouco a pouco conquistar teu coraçãoNum outro dia a gente se vê
Vou para um lugar que lembre do sertão
E canto xote pra te convencer
Vou te ensinar como viver é bomE amar até, amar até
Até quando Deus quiser
E amar até, amar até
Até quando os dois quiser        

 

Ôxe! Xote arretado, bom demais da conta, seu! Isso é da gota serena! Telma, beijo. Inté, minha gente.
(Ah, não estranhem estas linhas finais seguirem na cor verde. Cet idiot não conseguiu fazê-las ficar em preto. Bem, façamos de conta que é uma homenagem à natureza. Viva o verde!)
Bom dia.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Domingo

June 15, 2008

Não sei se onde voces moram é assim, se um dia foi assim. Por onde morei – quatro meses em São Gabriel da Cachoeira, quatro anos em Brasília de Minas e vinte anos em São Paulo – não me lembra ter visto estas quase sempre divertidas figuras. Será que é só em São José dos Campos ou só agora é que prestei atenção?
Vendedores de coisas em carros de som.
Há também os que vêm durante e apenas nos demais dias da semana, mas os mais interessantes são os dois que aparecem aos domingos. Durante a semana, não importa quão paramentados sonoramente estejam os concorrentes, reina soberano o carrinho do sorveteiro, empurrado por um velhinho que usa chapéu e que aciona a cada dez passos a buzina, tão desafinada, aguda, sem fôlego, triste, patética. Bonitinha.
Domingo à tarde vêm meus favoritos. Daqui a pouco dá a hora do primeiro, são duas e meia da tarde agora. Nunca o vi, sempre o amei. Sempre cai como uma luva, quando a luva cai bem. Que nem no “Bolero”, de Ravel, voce começa a ouvir baixinho e depois a coisa vai num crescendo.  A canção não sei de quem é, não sei quem canta, não sei o nome. Sei cantar o trechinho que escuto, e completo com palavras que invento pra poder ficar cantando.
É assim: “Hahahahahahaha, mas estou rindo à toa, ai que vida boa, e vai melhorar, ááááááá…”
Voces conhecem? Do restante não dá pra decifrar nada porque o equipamento deste meu amigo é ruim, que nem o do outro de quem falo a seguir. Mas ele não toca muito, interrompe a programação musical e informa pra todo mundo: “Olá, freguesia! Está chegando o carro de produtos de limpeza direto na rua de sua casa! Temos vassouras, temos detergentes, temos panos de limpeza! É só chegar, freguesa! É o carro de produtos de limpeza que está passando em frente da sua porta!”. Aí ele conta que mais coisas que ele tem, e põe a música de novo.
Passa uma vez, eu que sou fã sei que só tenho uma chance pra me deleitar, se perder é só domingo que vem.
Bom, se este de que falei é um Shopping Center do Lar ambulante, com música ambiente, o outro que vem por volta das cinco da tarde, é a praça de alimentação. Ele vende churros. Dá umas três voltas no quarteirão, tenho pra mim que o motorista está paquerando alguma garota das redondezas, este mercado que é nosso quarteirão não é tão consumidor assim. Sua canção, que também não sei nada a não ser o que ouço com ele, é assim (lembro que vou completando com o que invento o que entendo): “Saia dessa rotina, não quero colo de mamãe, só quero colo de menina, para ganhar seu coração”. Daí vem o refrão: “Igarapé, igarapé, até onde Deus quiser, Igarapé, Igarapééééééé,…”. Eis que chega a hora de anunciar o produto: “Olá, criançada! Os deliciosos churros Edson chegaram! Venha saborear! Churros Edson! Temos churros com doce-de-leite! Temos churros com chocolate! Temos diversos sabores de churros! Churros Edson! Sim, estes são os verdadeiros Churros Edson! Peça pra mamãe! Peça pro papai! Chuuuuuuuurros Edson!” E recomeça a canção do sujeito que não quer o colo da mamãe.
Diferente do “Bolero”, que termina com a orquestra à toda, as canções destes dois vão se extinguindo aos poucos, à medida em que escolhem outros quarteirões ou suas casas.

Muito, muito melhor que os telefonemas das operadoras de telemarketing, embora estes também tenham seu encanto.

                                  * * *

Sugestão musical: “Um dia de domingo”, com Gal Costa e Tim Maia, o Google me informa que é de Michael Sullivan e Paulo Massadas. 

 

Post Scriptum? Post Cantatum?

June 13, 2008

Gente, existe Post Cantatum? Não quero dizer dar uma cantada perto do poste, quero dizer que queria dar uma dica musical, tipo post scriptum, mas como é música, seria post cantatum. Bem, a explicação está me deixando pior, então deixa então ir direto ao assunto e sugerir “Los Mareados” – o final mais lindo de toda a história do tango – com quem voces encontrarem e se possível com Mercedes Soza; “Afiches”, linda demais da conta, qualquer intérprete e “Que Nadie Sepa Mi Sufrir”, na gravação de Sandra Luna. Buenos dias.

Uma Historinha Real

June 13, 2008

Ele estava hospedado num hotel na esquina da Avenida Paulista com a Rua da Consolação. O horário do café da manhã terminaria às dez, eram apenas oito e tinha tempo de sobra para sua rotina matinal: cafezinho, de preferência numa padaria ou então num bar quase lanchonete; um cigarro enquanto compra o jornal; mais um café, este segundo pode ser expresso; cigarrilha e de volta pro hotel.
Seu primeiro café tinha que ser de coador. Naqueles tempos havia uma epidemia de máquinas de café expresso por São Paulo. Quase sempre tirados com pressa e mal. Os dois melhores expressos que havia tomado chegaram quase mornos, isto não foi defeito, o esmero em quem preparou as xícaras trabalhou para que eles chegassem no sabor certo, onde a água e o pó de café formavam uma mistura homogênea, parecia que tinham nascido assim junto com o mundo, a bebida perfeita. Mas esta arte parece que é patrimônio de uma confraria secreta, não se passa de pai para filho porque nem todo pai sabia e nem todo filho quis aprender.
Quando ele acordava, normalmente sentia o que o Caetano cantou, que alguma coisa estava fora da ordem, fora da ordem mundial. Se um cafezinho de coador não consertava, com certeza não piorava. E, triste ironia, é mais difícil de errar, embora tenha quem o consiga. Numa padaria dum bairro de Mauá ele havia tomado tempos atrás o pior cafezinho de sua vida, seguido de perto por um outro numa parada de beira d’estrada, em Mirabela, nas Minas Gerais. Caras, parar pra tomar café nestes lugares foram realmente paradas sinistras.
Primeira parte do roteiro cumprida, vai com seu jornal para o Fran’z Café, na esquina da Haddock Lobo com Alameda Santos. Pede um café – lá só tem expresso, decente – e vai pruma das mesinhas de fora, a ala dos fumantes.
Há um par de rapazes ocupando a mesa ao lado. Num relance ele observou que os dois estavam muito bêbedos. Devia estar acontecendo o último ato da festa que teria começado na noite anterior. Depois, já tomando seu café, não pode deixar de olhar novamente o casal, que namorava como casais de bêbedos namoram pelo mundo inteiro, às vêzes errando o local do carinho e assim por diante.
Cinco minutos depois, de novo tirou os olhos do jornal porque o casal caía no meio-fio, entre a guia da calçada e um automóvel estacionado. Não estavam brigando. Os dois tropeçaram no ar e um no outro e agora entreolhavam-se, aturdidos. Um deles estava com marcas de sangue.
Ele começou a pensar freneticamente. Eles estão indo embora neste carro. Vão se matar. Vão matar outras pessoas. O que eu faço?
Após levantarem-se, um vai tropeçando até a porta do passageiro, consegue entrar. O outro vai também cambaleando até a porta do motorista e consegue entrar. Passam-se longos minutos, silêncio.
E agora? E agora? Ele olha em volta, não tem ninguém com quem possa se aconselhar, saber o que fazer. Procura algum carro de polícia mas também não há. Alguém tem que fazer alguma coisa. Passa como um raio em sua cabeça a situação de quando jogava buraco: sempre que alguém pergunta de quem é a vez, a vez é deste alguém.
Se encheu de coragem e pensou, bem, se eu escutar um montão de desaforos e insultos, talvez faça por merecer. Esses dois não podem sair assim.
Foi até a janela do motorista, fez um sinal com a mão direita para ele descer o vidro – nesta hora foi onde ele sentiu medo, a homofobia está solta pela cidade e os ocupantes poderiam pensar que ele era algum destes que saem xingando ou espancando gays pelo mundo – e após ele ter feito isto, preparou seu tom de voz mais persuasivo e:
   – Oi. Desculpem. Por favor deixem eu falar. Olha, voce não está em condições de dirigir. Voces acabaram de cair na calçada. Voce vai se machucar. Voce vai machucar ele. Vai machucar mais gente que está dirigindo. Olha só, voces não conseguiram andar e dirigir é mais difícil. Fiquem mais um pouco, durmam ali na mesa ou no carro. Chamem um táxi. Não vão embora. Voce vai machucar ele e voce gosta dele. Desculpem, achei que era minha obrigação falar isto. Desculpem.
Ele voltou para sua mesa, com a certeza que dali a pouquinho eles iriam partir, sabe-se lá quando e onde e como iriam chegar.
Ficaram parados. Passaram-se mais cinco minutos, sai o passageiro e vai em sua direção. Sua sombra de sorriso mostra que ele vem em paz. Balbucia:
    – Gostei muito do que voce falou. Eu trouxe isto aqui pra voce.
E abraça-o, enquanto lhe dá três balinhas destas de carrinho de pipoqueiro. Diz tchau e se vai para o automóvel.

Passa por sua cabeça a idéia de voltar ao motorista e tirar a chave do carro de sua mão. Refreia este impulso, pensando que isto seria extrapolar. O cargo de Deus não está vago. É difícil saber os limites da atuação humana. É difícil, e belo, viver.

Mais cinco minutos e partem os dois e o automóvel, rumo a não sei quê.
No dia seguinte ele não se lembrou de ver as páginas de jornais que tratam de acidentes de trânsito.

Post Scriptum II

June 12, 2008

Interrompemos vossa navegação pela internet para uma edição extraordinária de “E-Mails Malucos No Ar”.

Eis que se não quando recebo um e-mail cujo enderêço do remetente é noticias@cnn.com informando-me que o Chile acaba de declarar guerra ao Peru.  Já tão saindo na porrada.  Um amador filmou o exército chileno disparando na fronteira e com exclusividade poderei ver tudo, bastando clicar no link ao pé do e-mail. Que legal! Mas vou ver não. Guerra pra mim só com som 7.1, trilha sonora do John Williams pra cima, super elenco. Ou então filme cabeça. Mas não poderia deixar de registrar mais esta gentileza que recebo de algum tolinho, pra usar a palavra que Telinha garimpou.

Post Scriptum

June 12, 2008

Mea culpa.

Esqueci-me da sugestão musical.

Pra quem namora, pra quem ora não namora, pra mim também, “Onde Estará O Meu Amor?”, de Chico César, com o próprio; “Be My Little Baby”, não sei de quem é, com The Ronettes; “A Rosa”, de Chico Buarque, com o próprio.

“Minas”, de Novelli, com Milton Nascimento, na versão sem letra.

Nossas Coisas

June 12, 2008

Será que só humanos apegam-se a coisas? Parece que há um pássaro que também coleciona objetos, não precisa deles para viver, o faz como colecionador, sei lá se os admira em sua casa-ninho ou atende apenas ao impulso de pegar, como os compradores compulsivos. Este pássaro teria o nome de pêga, “gazza” em italiano, donde Rossini teria feito “La Gazza Ladra” e donde Hergé escreveu mais uma aventura de Tintim, “As Jóias da Castafiore”, com sustentação no pássaro e na ópera.
Voces gostam de Tintim? Pra quem gosta, como eu, uma ótima notícia: Steven Spielberg e Peter Jackson (do Senhor dos Anéis) estão trabalhando – não sei qual vai fazer o quê – pra levar pro cinema “As Aventuras de Tintim”.
Voltando ao tema, isto de apegar-se a coisas  mesmo sem saber porquê  já rendeu cenas memoráveis no cinema.  Em “Blow-Up”, no Brasil censurado da ditadura militar passaria em alguns lugares, mutilado, com o título “Depos Daquele Beijo”, Michelangelo Antonioni coloca a personagem principal, o fotógrafo David Hemmings, numa briga com algumas pessoas, à saída de um show de rock. Disputavam a socos e pontapés o braço da guitarra que um dos membros da banda havia quebrado no palco e jogado para a platéia. David ganha a disputa e sai com seu troféu. Caminha uns dez metros segurando-o, olha-o e em seguida joga-o fora. Por que brigou? Prazer da disputa? Também foi seguir um primeiro impulso, de querer o que vê?
Apropriamo-nos de objetos e de momentos, de pessoas, de sentimentos, de tanto, que sequer nos damos conta. Tudo fonte de prazer – e de problemas, a saber, dor. Mas, vá saber livrar-se disto.  Até o Dalai Lama quer o Tibet para os tibetanos, no que aliás acho que está muito certo.
Os casais de namorados têm seu filme, sua canção, seus lugares, suas datas.  Cazuza foi genial quando escreveu, em “Codinome Beija-Flor”: “(…)a emoção acabou, que coincidência é o amor, a nossa música nunca mais tocou (…)”. Nesta canção o sentimento de posse vai tão longe que ele chega a pedir pro ser outrora amado que ” (…) não responda nunca, meu amor, nunca, a qualquer um na rua, beija-flor (…)”. Este casal da canção tinha as “suas” palavras.
Dois dos melhores filmes para serem os “nossos” filmes dos namorados são, pra mim, do cineasta Jacques Demy, “Les Parapluies de Cherbourg” e principalmente mas menos famoso “Les Demoiselles de Rochefort”, respectivamente “Os Guarda-Chuvas do Amor” e “Duas Garotas Românticas”.
Todos os dois são como que óperas com música popular – Michel Legrand – e são cantados do comêço ao fim, causa uma certa estranheza em quem assiste pensando encontrar um musical no estilo dos de Hollywood, como o “West Side Story” que falei ontem. São carregados de poesia, inesquecíveis.
No primeiro a gente tem Catherine Deneuve com então 21 anos de idade, mais belíssima do que belíssima sempre foi e é. Há uma canção deste filme que ficou famosa no mundo inteiro, teve versões pra tudo quanto foi lado, nos Estados Unidos foi lançada como “I Will Wait For You”, e aqui chegou com este nome, com gravações de Frank Sinatra pra cima. Aliás se alguém conhecer a versão daqui do Brasil agradeço a informação. Minha canção favorita é uma outra, “Récit de Cassard”, também ganhou o mundo com um título em inglês, “Watch What Happens”.
No segundo filme volta Catherine, já com 24 anos e com sua linda irmã – no filme e na vida real – Françoise Dorléac. O elenco é fabuloso, cheio de estrelas do cinema francês e uma do cinema norte-americano.
Aviso de utilidade pública: se voce é que nem eu, não suporta que te contem final de filme, pule o parágrafo seguinte, é que só vai fazer sentido tudo que escrevi até aqui se eu contar o final de “Duas Garotas Românticas”. Depois que voce assistir, leia e veja se concordamos.

“Duas Garotas Românticas” conta as histórias de três amores. Uma, de um casal – Daniele Darrieux e Michel Piccoli – que separou-se muito tempo atrás e procura reencontrar-se. Conseguem. Outra, de uma das irmãs, que é música e que encontra seu par – Gene Kelly – antes do final do filme. A terceira, de um pintor ora marinheiro, que procura a mulher ideal e a pinta. Este retrato é exatamente o retrato da outra irmã – Catherine Deneuve – que é professora de dança e que ele jamais havia visto. Ela vê o quadro mas não seu pintor, e apaixona-se por ele, através do quadro, mesmo sem nunca tê-lo visto, ouvido, lido, foi através de sua arte.  Durante todo o filme uma série de acasos impede-nos de se encontrar. Na cena final, ela está indo embora para Paris de vez, de carona com uma equipe de espetáculos. Ele também está indo embora para uma folga de três dias, depois partirá com seu navio para uma viagem pelo mundo. Nunca se encontrarão, portanto. Vemos, de longe, ele pegar carona no caminhão da equipe. Não fica claro se é o caminhão onde está seu amor. Prefiro pensar que sim. Termina o filme desse jeito, com o final em aberto para cada qual pensar seu final preferido.

Qual foi, é, o filme de voces? A música?
Ocorre-me agora, vai saber, que hoje, em algum par de computadores um casal que vai namorar está lendo este blog neste exato momento.
No futuro se perguntarão: lembra do “nosso” blog?
Feliz Dia dos Namorados pra todo mundo.

 

 

My Funny Valentine

June 11, 2008

Estas datas comemorativas são gostosas. Não sei a origem da maioria. De onde saiu o Dia das Mães e por que no Brasil é no segundo domingo de Maio e na Argentina, pra ficar na vizinhança, é num mês diferente?
Sei lá como surgiram e “emplacaram” o Dia das Mães, dos Pais, o das Crianças. Este último era a senha para minha irmã e eu sonharmos com o que viria. E sempre vinha, que maravilha! O primeiro era a oportunidade para minha mãe assegurar que não queria nada e chorar quando recebia alguma bobagem comprada com dinheiro de meu pai. A data do meio era a chance de escolher um livro que talvez ele gostasse, daí nossa tática era pedir dinheiro emprestado – pra ele!
Não concordo tão rapidamente com a teoria de que foi tudo invenção dos comerciantes e que um trabalho intenso de publicidade disseminou, tornando quase que uma obrigação a conjugação do verbo comprar. Pode ser isto também, mas não apenas.
A impressão que me dá é que todo mundo vale-se destas datas como pretextos para presentear, pois que presentear é também uma necessidade e em alguns casos quase uma compulsão.
Adoro aquelas brincadeiras de fim de ano, de amigo secreto. Nem sempre dá certo. Em meus locais de trabalho, algumas e várias pessoas aproveitavam o espaço dos bilhetes para insultarem-se, aconteceram coisas desagradáveis, a “revelação” e a entrega dos presentes eram quase sempre momentos de alegria forçada, uma situação patética, triste mesmo. Mesmo passando incólume por estes episódios ocorria-me que formávamos um grupo de amigos secretos no fim do ano e de inimigos abertos no ano inteiro.
O nosso Dia dos Namorados é amanhã. Nos Estados Unidos tenho quase a certeza que o “Valentine’s Day” é noutro canto do calendário e nem imagino se outros países têm datas equivalentes e quando comemoram. O nosso é amanhã e portanto hoje é a véspera.
A gente pode tentar fazer poesia e escrever que se 12 de Junho é o dia dos namorados, portanto do namoro, 11 de Junho é o dia do pré-namoro. Um dia para calafrios. Parto do princípio que o dia 12 é o dia simbólico do comêço do namoro e a celebração da sua permanência.
A véspera é quando a gente ainda não se revelou. Ele sabe que sente algo tão diferente quando ela está perto, ele não sabe o nome deste sentimento.Ele quer ficar perto dela sempre. Ela sente o coração bater mais rápido quando escuta sua voz, ela não precisa vê-lo para sentir-se diferente.
Eles são tão amigos mas os dois já perceberam que com certeza ultrapassaram em algum momento uma linha que limita a amizade. E agora?
Não é sempre assim, nada é “sempre” assim – “the same old story” só existe nas maravilhosas canções norte-americanas – mas um filme, uma apresentação musical ou mesmo um fim de tarde num banco de praça contribuem para uma atração física incontrolável e eis o primeiro beijo. Desde então para sempre aquele vai ser nosso filme, aquela vai ser nossa música e alguns amores depois ele jamais se esquecerá daquela praça. A praça não é mais a mesma, ela já deve ser talvez avó agora, a música tocou por acaso numa rádio. Só lhe restou o filme, que ele recusa-se a rever, pois na sua memória o filme e ela não envelhecem e ele não quer perder isto. Principalmente na sua memória o namoro continua.
Foi infinito enquanto durou. Continua sendo.
Pra mim o melhor retrato de amantes que se descobrem, namorados que se reconhecem num mundo onde jamais sentiram o amor, é a cena de “West Side Story”, que pode-se encontrar no Brasil com o título de “Amor, Sublime Amor” – título muito inadequado pro que rola no filme, mas títulos brasileiros pra filmes é assunto pra outro post – onde há a primeira conversa entre Maria e Tony. Eles haviam se encontrado pela primeira vez minutos antes e ele vai procurá-la. Perdoem-me os erros, é que não tenho o filme comigo e vou citar a essência deste primeiro diálogo:
Tony: Eu já não te vi antes?
Maria:Tenho certeza que nunca te vi antes.
Tony: Voce não está brincando comigo?
Maria:Nunca aprendi a brincar assim.

Lindo. Imperdível, quem não viu não perca.

Aqui no Brasil, duas da tarde agora, ele está prestes a convidá-la para sair, ela está prestes a convidá-lo para sair. Às cinco eles se convidam e riem por terem tido a mesma idéia. Meia-noite voltarão para suas casas flutuando. Nesta noite eles começam a namorar.
Feliz véspera de namoro para nós todo mundo.

                                  *   *   *
Sugestão musical: Grande Fanfarra Para Um Homem Comum, de Aaron Copland; alguma gravação em que o regente seja Leonard Bernstein.

Fotos Instantâneas de São Paulo

June 10, 2008

As cenas, reais, passam-se em São Paulo, Junho de 2008 a todo vapor. Inusitadas para o ator comum de todos os episódios, não só por isto foram marcantes. Convidam a investigar, exigem isto. Mudou o viajante, mudou o cenário, mudaram os coadjuvantes e os figurantes, mudou o enredo, o roteiro, a música?  Ou mudou tudo?
São apenas algumas das tantas, vão totalmente fora de qualquer ordem, seja cronológica ou de importância.
Deixem começar com uma narrativa, um trecho de diálogo alheio num celular e logo após uma pergunta-desafio.
Oito horas da manhã de um domingo e nosso herói fuma uma cigarrilha ao lado da banca de jornais bem em frente à entrada principal do Conjunto Nacional, na Avenida Paulista. Enquanto vê as capas das revistas expostas numa das vitrines da banca, percebe aproximar-se uma senhora que parece não querer ver revista alguma e sim dizer-lhe alguma coisa. É uma senhora de uns sessenta anos, tem um rosto firme cheio de quase-sorrisos (lembro-me disto agora) e usa roupas simples, num estilo que lembra muito as senhoras evangélicas que nos visitam a todo mundo de porta em porta. Ele teve a certeza que seria admoestado por estar fumando e já decidira que iria concordar com tudo e ir continuar fumando em outro lugar, tudo bem que ouvisse algo por longa e interminável meia-hora que talvez estragasse o seu prazer mas não achava naquele momento justo fazer isto com a cigarrilha, que só existiu pra aquilo, ser acesa e brilhar e queimar e que logo iria embora pra nunca mais.  Sua cigarrilha merecia ter o prazer de ser fumada em paz.
Ela chega a uma distância de aperto de mão e pergunta:
 - Com licença. O senhor está fumando cigarrilha?
 - Estou sim.
 - Essa é cubana?
Bem, esta lhe deixou desguarnecido. Uma dezena de hipóteses o assolou num átimo de segundo, desde ser um modo de campanha original com criatividade na abordagem inicial do devasso a ser salvo até o extremo de ela começar a gritar: “Safado! Além de fumante é comunista!”.
 - Não senhora, esta é baiana.
 - Ah, eu sei quem fabrica, a fábrica está sendo vendida. Adoro o cheiro de cigarrilha.
Como escreve a Carla San, catapoft!  Aquilo era realmente inédito.  Haveria mais uma informação que deixaria o quadro ainda mais insólito.Enquanto ela também começava a olhar as capas das revistas, sem se afastar muito de nossa desde então amiga comum cigarrilha, o sujeito perguntou:
 - A senhora gosta desta marca? Qual a senhora fuma?
 - Eu não fumo.
O silêncio do fumante inundou a Paulista e transbordou pro Centro e pros Jardins. Se até agora não consigo entender o assunto, que dirá na hora.
Antes de ela se afastar, despede-se amistosamente e nos desejamos um ótimo dia. Ocorre-me agora: será um dos seus hábitos? Perambular em busca do aroma das cigarrilhas?

                                                * * *

Segunda-feira de manhã na fila no banco, que rodopia pelo saguão. Nossa personagem acima está com um livro, fila sem algo pra ler não anda, ele tem prova provada disto, e portanto está não só de boa como está sussa.  A trilha sonora é um burburinho típico de assuntos bancários que requerem certo sigilo, com exceção de uma ou outra pessoa falando mais alto ao celular que iria chegar atrasada porque estava no banco ou a voz da caixa que atendia os idosos.  De repente uma senhora, que estava sentada, diz alto e bom som, ao celular:
   -  Eu estou atolada de coisas pra fazer.
Passam-se alguns segundos e ela repete, mais alto: “Eu estou atolada de coisas pra fazer”. Mais um pouco, ela faz uma pequena alteração e diz, mais alto ainda: “Não, não é isso, é que eu estou atolada de coisas pra fazer”.
Daí, num momento realmente intenso, ela grita: “O que eu estou falando é que estou atolaaaaaadaaaaa de coooooooisaaaaas pra fazeeeeeeeer!”.
Caramba, que situação. Todo mundo naquele andar já teria ouvido com certeza o quão ocupada estava aquela mulher na sua vida. A personagem testemunha do episódio lembra-se agora que por mais incomodado que todo mundo estivesse com os decibéis que nos cercavam, ninguém se ofereceu pra ajudá-la a resolver algumas de suas coisas, hahaha.  Bem, o suspense continuava, como iria acabar tudo aquilo?
Depois do último grito, estava todo mundo esperando o próximo berro ou algum outro fim abrupto insinuando violência quando a próxima frase que ela falou ao celular foi esta, num tom de voz nem alto nem baixo, simplesmente audível:
   -  Ah, eu estou atolada mas eu gosto.
Pano rápido.

                                                * * *
Uma pergunta que na verdade é um desafio. Está relacionada a esta mais recente viagem para São Paulo da nossa personagem.
A organização não permite que a Fal responda esta pergunta, nem pra quem ela contou. Sim, my friends, a Fal já sabe.
Qual peça de William Shakespeare está sendo vendida em forma de maços de cigarros? 

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Um bom dia pra todo mundo. E, pra inaugurar seção esporádica de sugestão musical: “Basta Um Dia”, do Chico Buarque, com Bibi Ferreira.