Archive for July, 2008

Jogar? Quem? Eu?

July 23, 2008

Transcrevo nota do jornal “Valeparaibano”, edição desta quarta-feira, 23 de Julho. Está na página 11 do primeiro caderno:

“Aposta simples dá uma chance em 50 milhões

  A aposta simples da Mega-Sena, com seis números, custa R$ 1,75 e a probabilidade de um apostador acertar neste caso é de uma chance em 50 milhões, segundo dados da Caixa Econômica Federal. Na aposta de sete números, que custa R$ 12,25, as chances aumentam – uma em 7 milhões. Mesmo com as dificuldades, os apostadores não perdem a esperança e imaginam o que poderiam comprar com tanto dinheiro. E não é pouco. Com os R$ 30 milhões seria possível comprar 353 casas de três dormitórios na praia Martin de Sá, a mais badalada de Caraguatatuba, ou ainda 1.500 carros populares motor 1.0 no valor estimado de R$ 20 mil.”

Deixa eu falar que fui viciado em jogo. Um horror. Apostava em corridas de cavalos e nas máquinas. Ah, sim, nas loterias também. As máquinas é que fazem você arruinar-se, a velocidade é enorme, enquanto você tiver crédito – com a casa ou com o banco ou com os agiotas – você aposta. Parada sinistra. Sei lá como saí dessa, sei que saí, graças aos céus.

 
Tenho uma teoria sobre a compulsão do jogador exclusivamente baseada na experiência pessoal, não sei se está de acordo com os estudos científicos. Aposta-se não para ganhar, aposta-se para apostar. Ganhar ou perder, como se diz, faz parte do jogo. Joga-se pelo prazer de jogar. Corrobora esta teoria, acreditem pois é pura verdade, o fato de que apostava na loteria e não conferia os bilhetes. Pode? Consola-me hoje o fato que a teoria das probabilidades está do meu lado, quase certo dos bilhetes não serem os premiados. Cof, cof, quase. Vai saber.

 
Pois então, dizia, parei de jogar há algum tempo. Ainda agora, de vez em quando, num momento de sorteio de prêmio acumulado da mega, se ocorrer de passar por alguma lotérica e estiver vazia, titubeio e faço a aposta mínima. Sempre com os mesmos números: 01, 07, 10, 13, 18 e 20. Tempos atrás, quando era jogador contumaz, fazia aquele tipo de aposta repetida, você vai à lotérica e pede pra repetir aquele mesmo jogo por não sei quantas vezes.

 

Sério, até hoje não sei se esta combinação foi sorteada alguma vez. Gostaria de saber.

 
Mas, hoje, não vou apostar nem que a môça do caixa da loteria venha buscar a aposta aqui em casa. Vai que eu ganho?
Gente, eu quero tranquilidade. Alguém em sã consciência pode me explicar, com educação, o que faço com 353 casas num ponto badalado de Caraguá? Tenha dó. Tá, supondo que tenham alguma serventia, gastei todo o dinheiro com as casas. E o IPTU? Sim, eu quero saber quem é que vai pagar o IPTU. Quem vai mobiliar estas casas? Quem vai pagar o salário de quem vai ficar com a incumbência de abrir as janelas pra deixar entrar ar? E fechar as janelas, quem vai? Ah, eu, né? Tá bom. Tudo eu. Sei.
E os 1.500 carros? Aí realmente é a cereja do bolo. Onde que eu vou estacionar tudo isso? Nas casas lá de Caraguatatuba? Mas como, se posso comprar ou uma coisa ou outra?
30 milhões não dá pra nada. E pro que dá, só dá trabalho.
Não, não vou apostar.
Fica quem sentir vontade desde já com a autorização para apostar os “meus” números. Desejo sorte pra ganhar e pra gastar bem.
Como este blog não tem milhares de leitoras e leitores, mas todas e todos que aqui vêm são de escol – isto não é propaganda subliminar de cerveja, se for beber não dirija mas tome mais uma vodka gelada por mim and one for my baby and one more for the road – e portanto se todo mundo que estiver lendo apostar nos mesmos números, o prêmio será dividido por pouca gente.
Espera…eu poderia ser um desses da pouca gente.
Com licença, vou até a lotérica e já volto.
*************************************
Sugestão musical: “One For My Baby”, Billy Eckstine

 

Boa tarde e…sorte!

A Trilha Sonora da Tua Vida

July 14, 2008

No Drops da Fal há uma pergunta: qual música você canta quando está feliz?
Depois de responder fiquei a me lembrar de uma idéia antiga: de como seria a trilha sonora da minha vida.
Minha paixão por cinema e música sempre me fizeram pensar nisto.
Há diversos tipos de trilha sonora. Desde aquelas em que as personagens têm seus temas distintos, até as que têm temas próprios pras diversas situações dos filmes. Há ainda as que combinam as duas.
Há também, é uma idéia interessante, quem propugne um cinema sem música. Cinema, pra esta corrente de opinião, é essencialmente imagem. Pra mim, pessoalmente, cinema sem música é como dizem muitos “oriundi” sobre espagueti: macarronada sem queijo é namoro sem beijo.
E nas nossas vidas, onde somos as personagens principais, que música toca? Qual seria nosso tema, o que ouviríamos nos momentos mais alegres, mais tristes, nos momentos sem sal nem açúcar? Talvez, como naquela canção que começa “o que dá pra rir dá pra chorar” tudo talvez seja apenas “questão só de tempo e de lugar”.
Temos sempre as opções de escolher nossas trilhas sonoras, não é? Algumas pessoas asseguram que neste filme que é a vida têm capacidade até de escolher o roteiro, o cenário, tudo. Não sei. Às vêzes acho que sequer minhas falas sou eu quem as escolho.
Mas a trilha sonora sim, está disponível pra todo mundo. É só treinar a vontade.
Você vive uma certa situação, marcante. Relembrando-a, na memória põe a música adequada.
Ou, ainda, no momento mesmo em que vive aquilo vem forte uma imagem musical. A música vem para explicar a situação, para embelezá-la.
Ou há o silêncio. Sem silêncio não há música possível. É principalmente a combinação som e silêncio que diferencia as interpretações das músicas. Timbre de voz, dos instrumentos e volume sonoro completam o quadro.
Por isto você ouve a Suíte Nº1 para violoncelo, de Bach, na interpretação de Rostropovitch e tem música. Ouve a mesma obra com Pablo Casals e tem outra música. Continuando o exemplo, ouve a mesma suíte com Yo-Yo-Ma e tem outra música ainda. Com o brasileiro que está fazendo tanto sucesso mundial no momento, Antonio Menezes, tem outra.
Pra ficar só nestes quatro violoncelistas, não dá mesmo, pra mim, dizer: tal versão é melhor, tal versão é a “certa”. O encanto que a arte exerce é também porque é que nem caleidoscópio, aceita e estimula e até requer muitas visões. O máximo que a gente pode alcançar, acho, é escolher dentre tantas e tantas obras e tantas e tantas versões a que nos fala mais fundo – naquele tempo e lugar em que a ouvimos.
Talvez nesta montagem da trilha sonora da nossa vida o que nos causa mais impacto é quando, sem querer, ouvimos algo para nós inédito. Passa a ser parte integrante deste nosso filme. Chegamos a nos perguntar: como é que essa pessoa sabia o que eu estava sentindo?
É assim com música, é assim com cinema, é assim com literatura, é assim com tanta coisa.
Na minha trilha sonora, nesta primeira quinzena de Julho de 2008, toda manhã toca o dueto das flores, de Lakmé, de Delibes.
*************************
Frase de cinema (caras, não penso mesmo assim, mas a frase é fantástica):

Horace: – Oitenta por cento da população são idiotas e o resto de nós está em perigo de contaminação.

Horace Vandergelder (Walter Matthau) em “Hello, Dolly”
*************************
Sugestão musical: A canção-tema de “A Bela e a Fera”, de Alan Menken & Howard Ashman. com Angela Lansbury

************************

Um excelente fim de tarde!

Para Cantar Hoje

July 13, 2008

Hoje
Eu quero a rosa mais linda que houver
E a primeira estrela que vier
Para enfeitar a noite do meu bem
 
Hoje
Eu quero paz de criança dormindo
E o abandono de flores se abrindo
Para enfeitar a noite do meu bem
 
Quero a alegria de um barco voltando
Quero ternura de mãos se encontrando
Para enfeitar a noite do meu bem
 
Ah! eu quero o amor, o amor mais profundo
Eu quero toda beleza do mundo
Para enfeitar a noite do meu bem
 
Ah! como este bem demorou a chegar
Eu já nem sei se terei no olhar
Toda ternura que eu quero lhe dar

Dolores Duran

*********************

 
Hoje
Trago em meu corpo as marcas do meu tempo
Meu desespero, a vida num momento,
A fossa, a fome, a flor, o fim do mundo…

Hoje
Trago no olhar imagens distorcidas
Cores, viagens, mãos desconhecidas
Trazem a lua, a rua às minhas mãos,

Mas hoje,
As minhas mãos enfraquecidas e vazias
Procuram nuas pelas luas, pelas ruas…
Na solidão das noites frias, por você

Hoje
Homens sem medo aportam no futuro
Eu tenho medo, acordo e te procuro
Meu quarto escuro é inerte como a morte

Hoje
Homens de aço esperam da ciência
Eu desespero e abraço a tua ausência
Que é o que me resta, vivo em minha sorte

Sorte…
Eu não queria a juventude assim perdida
Eu não queria andar morrendo pela vida
Eu não queria amar assim como eu te amei

Taiguara

********************

Bom domingo!

Uma canção para um encontro de sexta à noite

July 11, 2008

Be careful
It’s my heart
It’s not my watch you’re holding
It’s my heart
It’s not the note I sent you that you quickly burned
It’s not a book I lent you that you never returned

Remember
It’s my heart
The heart with which so willingly I part
It’s yours to take to keep or break
But please before you start be careful
It’s my heart
It’s yours to take to keep or break
But please before you start be careful
It’s my heart

Irving Berlin

*************

Sugestão musical: “Be Careful, It’s My Heart”, com Bola de Nieve.

Edição Extraordinária

July 11, 2008

Da série “Meros e Tolos e Inúteis Devaneios Tolos a Me Torturar”: termina o “Jornal Nacional” e William Bonner declara: “mais notícias logo mais, após por toda a minha vida, no “Jornal da Globo”.
Devaneio: puxa, vou ter que esperar toda a vida dele pra ter mais notícias? E será logo mais? Nossa, ele sabe que é um doente terminal.  Será?  Nada.  Vai se matar.  Suicida malvado!  E a Fátima nem tchuns pro assunto! Ou ele vai ficar a vida inteira dando mais notícias, começando logo mais?  Cara grudento.  Ei, mas ele falou “após”, eu ouvi!  Dúvidas, dúvidas.  Ih, não quero mais confusão, vou voltar para a internet, este paraíso virtual.

Historieta

July 10, 2008

Ás vêzes somos testemunhas, ou mesmo protagonistas, de pequenos ou grandes acontecimentos que, se a gente parar pra pensar, só teriam mesmo lugar na vida “real”. Nenhuma obra de ficção os mencionaria, seja de boa ou de má qualidade, seja de que gênero for.
Isto vale, nesta teoria, para o que nos faz rir ou chorar. Para o que nos faz pensar: isto é poesia, isto é o horror.
Temos conosco nesta nossa bagagem emocional e intelectual alguns ítens para nós tão importantes que os guardamos a sete chaves (sabia que um dia usaria esta expressão num texto, yeahhhhh!) e, pelo precioso que são, a ninguém os mostramos, seja por medo da opinião pública, isto é, da outra pessoa, zombar de nós expondo-nos ao ridículo ou, pior, não zombar mas destruir estes nossos valiosos tesouros. Dentre estes ítens estão alguns dos episódios do primeiro parágrafo.
Este temor de passar vergonha é universal. Todo mundo vai se lembrar de “O Rei Leão”, quando o Simba, então ainda no exílio, está deitado olhando as estrelas e comenta algo que ouviu do pai. Seus dois companheiros de jornada riem-se dele e Simba retrai-se, nega a história, fica envergonhado. Mas que lindo o que ele havia ouvido!
Assim é com nosso pequeno álbum mental de recordações. Relutamos em compartilhá-lo, tememos que não será apreciado por outros olhos com os nossos olhos. É um misto de prudência e egoísmo o que nos move.
Sempre há o risco de a gente contar uma história, até tentando disfarçar que ela para nós é importante, até deixando a pessoa ouvinte à vontade para ignorá-la pois não destacamos o quão ela nos é importante, sempre há o risco de ouvir: só isso?
Por muito tempo eu e minha geração vivemos estes dilemas. Digo minha geração, minha geração brasileira, americana, porque aqui neste continente, neste país, crescemos com um “contrato social” diferente do de muito países. Não estou me referindo a diferenças econômicas e sociais centenárias, estou me referindo diretamente às ditaduras militares que assolaram as Américas pelas décadas de 60,70,80. Quem nasceu no fim dos 50, como eu, não passou um dia sequer, não passou meia-hora numa escola, ginásio, colégio, faculdade que não fosse sob o tacão da ditadura militar, aqui no Brasil. Que isto tem a ver?
Tem que a necessidade de falar, a incontrolável necessidade de falar, de cantar, de escrever, de se expressar enfim, depois que esta geração viu que não estava mais amordaçada, tinha que ser saciada. Começamos a recuperar o tempo perdido, sem freio nem limites. Passamos a falar tudo o que pensamos, e nem tudo o que pensamos é interessante. Daí vieram as topadas. E portanto uma certa retração. Incrível, não? Toda uma geração está reaprendendo a falar.
Não me aceitem literalmente. Creio não ser necessário lembrar que é apenas mais uma teoria.
Voltando à minha geração e seu tempo de dilemas sobre mostrar seus tesouros, cada qual teve uma resposta. Houve quem se calou, pra que submeter-se à dor de ver estes tesouros achincalhados? Houve quem entendesse que maior que qualquer tesouro escondido era o tesouro da liberdade de poder mostrar tesouros, sempre poderia juntar-se mais, se aqueles sumissem. Houve também quem preferisse acreditar que aqueles tesouros só teriam sentido vistos.
Sei lá em que categoria me enquadro. De minha parte, vou pelo instinto. E é isto que farei agora, compartilhando com vocês um de meus tesouros.
Não beira o inacreditável, para mim, porque para mim é para lá de inacreditável. É curta, é simples, é bela esta história, ouvi-a de meu pai, na minha adolescência. Devo ter perguntado pra ele, depois que me contou da primeira vez, umas vinte sobre sua veracidade. Sempre confirmou. Cabe inteira no parágrafo seguinte.
Meu pai era solteiro, isto foi na década de 50. Um seu companheiro de fábrica casou-se. No dia seguinte foi buscar seu pagamento mensal na fábrica e contou pros colegas que, pra comemorar o casamento, como lua-de-mel, ele e a esposa tomaram o ônibus “Estações”, circular que saía da Estação da Luz, passava pela Estação Sorocabana, Estação Roosevelt, dava uma volta pelo centro e retornava à Estação da Luz, quarenta minutos de viagem.
Esta é a história.
Não sei como estão agora os noivos, nunca soube, sequer se estão vivos ou, se não, quando deixaram de estar. Se deixaram filhos, se continuaram casados. Não sei nada deles a não ser que aquele ônibus, comigo, nunca mais parou de circular, está sempre com eles e os vejo. Vejo-os arrumados com seu máximo possível, me encantam seus olhares ternos, ouço seus projetos. Gostaria tanto de algum poeta estar junto comigo para colocar em palavras o que só sei sentir, talvez não doesse tanto, de tão belo.
Caras, digo pra vocês, a melodia e a letra de “Gente Humilde” me vêm toda vez que me lembro desta lua-de-mel.
*****************
Sugestão musical: “Clube da Esquina nº2″, com Milton Nascimento; “Dio Come Ti Amo”, com a Gigliola Cinquetti e “Pro Dia Nascer Feliz”, com Cazuza & Barão Vermelho.

A Day In The Life II

July 9, 2008

   -  Chamada a cobrar. Para aceitá-la continue na linha após a identificação.
Traariiiiiiróóóóóóóóó.
Há os dez segundos habituais de braço-de-ferro, ou de silêncio-de-ferro. Ela sempre espera eu falar, eu sempre espero ela falar. Ela é mais adulta que eu e começa:
   -  Papai? ( o silêncio é o suficiente para ela me identificar, todos os demais humanos da casa perdem pra ela)
   -  Oi, querida.
   -  E aí, mano?
   -  Digue, meu.
   -  Papai, você conhece algum chaveiro por aqui?
  -  Meu bem, aí tem mais chaveiros que fechaduras. Maz faz assim, pergunta pro zelador. Se ele não souber, o que duvido, desce a Peixoto Gomide dois quarteirões, entra  à esquerda e vai até a Augusta. Vai descendo em direção ao centro. Acho que você não vai andar quinze minutos até aparecer algum.
   – Õuquei. E deixa perguntar: onde era aquele sebo que a gente foi que eu comprei os elepês?
   – Ficava na Brigadeiro Luis Antônio, bem no comecinho. Toda hora aí em São Paulo tem sebo que fecha e tem sebo que abre, não sei se aquele ainda continua lá.
   – Ah, tá.
   – Você está querendo ir lá hoje?
   – Não, não. É que a Kelly vem pra São Paulo no fim da semana e pediu pra gente passear em algum sebo, daí lembrei daquele.
   – Ela gosta de sebo também?
   – Ela gosta de livro. Daí, de tanto ela ouvir falar dos sebos de São Paulo, quer conhecer, ela não conhece nenhum.
   – O que ela gosta de ler? Digo, tem algum autor, algum gênero que ela gosta mais?
   – O que ela mais gosta é de poesia. O Vinícius de Morais ela sabe de cor.
   – Tem um verso dele que eu aposto que ela não sabe.
   – Papai…
   – Sabe qual é? 
   – Papaaiii…lá vem…
   – Não, é assim: filhos, melhor não tê-los; mas, se não tê-los, como ensaboá-los? Depois ele mudou.
   – Ah, certo, certo, vou falar pra ela.
   – Ela precisa saber disto. Mas, veja, não precisa saber que fui o descobridor. Diz que foi você mesma.
   – Tchau, papai.
   – Tchau, bem.
   – Beijocas.
*************
   – Ôpa.
   – Boa tarde. Tudo bem com o senhor?
   – Tudo em ordem.
   – Assino aqui, né?
   – Isso.
Enquanto tento equilibrar a prancheta e o pacote que ele já me entregou no braço esquerdo, passo o cigarro da mão direita pra boca e pego a caneta. Está um azul maravilhoso no céu e até o cinza das calçadas está alegre, uma tarde mesmo especial.
Este carteiro não é o mesmo de ontem. Devolvo a prancheta e a caneta.
   – O senhor lê bastante, né?
   – Como o senhor notou?
   – Ah, sempre que eu venho aqui é pra trazer estes pacotes. O senhor gosta de ler, então?
Na hora este “então” provocou-me um certo calafrio, mas vou preferir pensar que faz parte de seu estilo, digamos, detalhista e de algum século passado de falar.
   – Sim, sim. Puxa, sabe que o senhor é o primeiro que me fala isso?
Sorriu escancaradamente talvez satisfeito por ver reconhecida sua habilidade dedutiva ou para disfarçar que havia percebido minha deslavada mentira.
   – Até logo, boa tarde.
   – Obrigado, até logo, boa tarde.
**************
   – Alô?
   – Boa tarde. Com quem estou falando?
   – Mauro.
   – Senhor Mauro, meu nome é Cíntia e estou falando em nome do Grupo de Apoio ao Combate às Vítimas de X, está tudo bem com  senhor?
   – Tudo.
   – Senhor Mauro, o motivo de nós estarmos fazendo este telefonema é para estar pedindo uma contribuição pequena para ajudar nossa luta e estamos telefonando para todas as pessoas de coração bondoso como o senhor para que possam estar contribuindo. O senhor conhece nosso trabalho?
   – Na verdade já ouvi alguma coisa. Veja, sei que seu tempo é valioso e deixa te falar que não dá pra eu contribuir com nada.
   – Mas senhor Mauro, tenho certeza que assim que o senhor ouvir tudo que fazemos este seu coração bondoso vai nos ajudar.
   – É Cíntia seu nome, né?
   – Sim, senhor Mauro.
   – Cíntia, deixa te falar, acho que houve algum engano. Meu coração não é bondoso, ele é malvado. Além disto, estou completamente duro, endividado. Vamos nos despedir agora como bons amigos, mas de antemão te aviso que sou casado.
   – Mas nã…O grupo de apoio ao combate às vítimas de X agradece e lhe deseja uma boa tarde.
   – Boa tarde pro grupo e em especial para você.
***************
Sugestão musical:a trilha sonora de “Intriga Internacional”, de Bernard Herrmann (dá pra achar na rede com o título original, “North by Northwest”); “Una Lacrima Sul Viso”, com Bobby Solo; “God bless the child”, com Billie Holiday.

A Day In The Life

July 7, 2008

   -   Papai, a que horas o pessoal da mudança vai chegar?

   -   Está marcado pras dez da manhã, filha.

   -   Eles vêm mesmo neste horário? Será que vão demorar muito?

   – Olha, acho que não. Tanto pra carregar como pra descarregar vai ser rápido, vocês têm pouca coisa. O que pode demorar mais é o trânsito. Eles vão ter que ir da Vila Mariana até Cerqueira César, mesmo com as férias escolares acho que talvez complique um pouco, não sei. Você já arrumou as coisas pequenas, certo?

   – Quase. Você acha que até meio-dia já terminaram?

  – Espera. Como assim “quase”? O que falta?

  – Ah, o básico.

  – Sim. O básico. Olha só, se este básico ficasse pronto hoje as coisas sairiam mais rápido amanhã. O quem tem de especial meio-dia? De qualquer maneira, acho que meio-dia não terminam não, não creio.

 - Nada não. É que, você sabe, o A. só tem a têrça de folga e a gente estava querendo assistir Kung-Fu Panda. Ele só pode ir se for no comêço da tarde porque depois ele tem que tomar conta do irmão.

 - Puxa, que problemão. E que vida atribulada ele tem, não?

 - Papai, me poupe.

 - Ah, não ligue pra mim, eu me emociono facilmente. Bom, sugiro voces marcarem o cinema pra outro dia, pelo que estou vendo este filme não vai sair de cartaz tão cedo.

 - É que eu precisava saber com certeza pra marcar com ele. E até pra pedir uma grana pra você. Estou sem e ele ainda não recebeu.

 - Certo, certo. Bom, já que nós concluímos que vocês não vão ao cinema amanhã então também já resolvemos o problema do dinheiro, concorda?

 - É que

 - Filha, estão tocando a campainha. Depois a gente continua. Tchau, beijo.

 - Beijocas.

*******************

 - Boa tarde.

 - Senhor Mauro?

 - Sim.

 - Mais uma encomenda aqui pro senhor.

O “mais” não me passou desapercebido.

 - O senhor coloca o nome aqui, por favor.

E me dá uma prancheta, com uma folha cheia de nomes e enderêços, e uma caneta. Enquanto escrevo, o senhor que é um dos senhores que entregam encomendas por Sedex quando os Correios estão em greve, trajando o bonito uniforme dos carteiros – azul e amarelo, tal qual as cores de São José dos Campos (uma das três coisas boas desta cidade) e do Boca Juniors (se bem que estos dicen “azul y oro”)  -  olha o pacote que me entrega em seguida e diz:

   – O senhor sempre recebe estes pacotes, né? O senhor deve ler muito.

   – Ah, bom, sim…

   - Eu não gosto muito não.

   – Não?

   – Minha filha gosta.  Ela gosta de ler.  Ah, eu gosto de gibi, gibi eu leio bastante.

  – Ah, certo.

  – Bom, até logo.

  – Até logo, boa tarde. 

Mais um daqueles curtíssimos diálogos surgidos do nada que vão ficar na minha memória para sempre.

**************

   -  Alô?

   – Boa tarde! Aqui é do Banco X, meu nome é Luciana. Com quem estou falando?

   – Mauro.

   – Lauro?

   – Mauro.

   – Lauro?

   – Mmmmaaaaauuuurrrrrrooooo.

   – Lauro?

   – Sim. Lauro.

   – Eu gostaria de falar com o Senhor Mauro, ele está?

   – Não. Adeus.

   – O Banco X agradece sua atenção, tenha uma boa tarde.

****************

Sugestão musical: “The Way You Look Tonight” com Fred Astaire, quaisquer das gravações (lindas demais são também as que estão nas trilhas sonoras de “O Pai da Noiva”, na refilmagem com o Steve Martin e a daquele delicioso “Peter’s Friends”, não me lembro como passou no Brasil, é sobre a reunião dos amigos do Stephen Fry, que vão visitá-lo, dentre estes a Emma Thompson, o Kenneth Branagh e o Hugh Laurie); “Esquadros”, com a Adriana Calcanhoto; “Twist and Shout”, com The Beatles.

Perguntas

July 6, 2008

Morávamos em São Caetano do Sul. Uma das amigas de minha irmã, de nome Ivani, e colega de trabalho, veio lhe contar dos seus problemas sentimentais, lá durante o expediente. Estavam empregadas por uma enorme concessionária de automóveis lá em São Caetano mesmo.
A família da Ivani vivia como se fosse numa ópera. Tédio e monotonia passavam longe daquela casa.
A Ivani estava noiva, contrariando sua mãe, que não suportava o provável genro. Bem, então certo dia a Ivani comunica sua mãe que iria se casar.
Imaginem a cena. A mãe, aos gritos, disse: “Você casa com ele e eu te mato no mesmo dia! Eu te mato!”.
Aturdida, a Ivani vai conversar com o noivo. E, mesmo não acreditando que sua mãe cumprisse a ameaça, sugere pra ele que talvez devessem esperar um pouco, pra não contrariar ainda mais sua mãe, com o tempo ela iria aceitar.
Como reage o pretendido? Bem, ele também vivia numa ópera. Reagiu assim:
” – Escute bem. Não aguento mais tua mãe. Vou me casar com você e pronto. E vai ser pra já, o quanto antes. E se você pensa que você vai me enrolar, que vai ficar me cozinhando, fique sabendo que quem vai te matar sou eu. Se ela está exagerando eu não sei, só sei que eu não estou.”
Que legal, não?
A Ivani, acuada, vai desabafar com minha irmã.
Tudo isto estou contando conforme aconteceu, não estou aumentando nem diminuindo nada.
Minha irmã ouve tudo, ouve também a pergunta de Ivani sobre o que deveria fazer e, as duas sem tirar os olhos da papelada de automóveis em que estavam mergulhadas, responde:
” – Bom, você vai morrer de qualquer jeito. Então pelo menos morre casada.”
Isto aconteceu há uns trinta e poucos anos. Fui me lembrar na noite passada, por acaso, veio do nada durante alguns momentos de insônia. Ah, lembrei-me também de duas perguntas interessantes, que daqui a pouco lhes faço.
Se você que está lendo estivesse no lugar de minha irmã, o que responderia? Só na noite passada me ocorreu perguntar-me que resposta eu mesmo daria. Compartilho convosco.
Diria assim: “Ivani, não se case. É bem certo que você estará morta, mas veja, isto acontecerá de toda maneira. Acontece que se você se casar, além de deixar um viúvo e uma mãe desfilhada, vai tornar esta uma assassina. Por outro lado, se você morrer solteira, o assassino não fica viúvo. Além do quê você diminuirá o sentimento de culpa deste maledetto porque uma coisa é matar a noiva e outra bem diferente e pior é matar a esposa. E você não obriga sua mãe a te matar. Você estará sendo uma boa filha. Se por acaso você estiver tomada por algum sentimento torpe e vil de vingança, deixa com tua mãe que ela resolve o assunto, se a polícia não resolver antes. E mais, se tudo isto acontecer mesmo, na certa se não for tua mãe alguém da tua família vai acertar este teu pombinho e é provável que alguém da família dele se vingue. Começa uma nova história de vendettas, mama mia! Olha que legal! Você vai dar motivo pra todo mundo que te ama e que aqui ficará pranteando tua memória se divertir, fugindo das balas perdidas ou punhaladas no meio da noite. E é capaz de virar novela de tv. “
Gente, seria uma boa sugestão?
Ah, em tempo: a Ivani se casou. Deu um casal de netos pra mãe, que está viva e mora com eles.
“Eles” são a Ivani e seu segundo marido. O primeiro, o da ópera, descobriu que não gostava da Ivani depois de dois anos de casados. Minha irmã não sabe se este segundo marido e a sogra se dão bem. Não quer perguntar.
*****
A primeira das duas perguntas é feita como se estivéssemos conversando pessoalmente. Pergunto:
” – Você já comeu pão com mamão?”
O que você responde?  Responda agora.  Já respondeu?  Bem, minha vez:
” – Ah, eu consigo. Não preciso das duas mãos.”
A segunda pergunta é pra quem já leu história em quadrinhos da turma do Maurício de Souza.
Quem fala errado, a Magali ou o Cebolinha?
Se você respondeu Magali você acertou. O Cebolinha fala “elado”.
*****
Sugestão musical para este domingo: “Syrinx”, de Claude Debussy, que seja apenas em solo de flauta e não nas versões eletrônicas ou para orquestra, teclados, etc… E “Aquarium”, do Carnaval dos Animais, de Saint-Saens, na versão para orquestra.
As duas, como algumas outras músicas, alguns trechos de filmes, alguns trechos de livros, alguns quadros, algumas paisagens e alguns momentos, são portais por onde você passa pra chegar em outras dimensões. Mas isto é tema pra outro dia.