A edição de 22 de Junho de 1872 do Daily Cronicle trouxe uma curiosa nota em sua página de despachos internacionais. Sob o título “Feliz Coincidência”, informa-nos o sempre austero matutino de Dublin que (em fiel tradução):
”Nosso repórter William Doyle, convalescendo no Hospital Militar em Bombaim, travou conhecimento com Vladimir H. Petriin, seu agora companheiro de quarto. Mr. Petriin revelou-se, como William, estudioso do incêndio da antiga Biblioteca de Alexandria. Informa-nos William Doyle que Mr. Petriin assegurou-lhe saber o paradeiro de uma dezena de livros-objetos da Biblioteca, dentre os quais o lendário “Vidas em Nossos Muitos Mundos – Nossas Partidas, Nossas Viagens, Nossas Estadas, Nossas Voltas”. William Doyle informa ainda que estão assentes, ele e seu companheiro de quarto, de empreender uma viagem até aquele local, que por enquanto sabe William apenas ser na Ilha de Chipre, tão logo recebam alta.”
A curiosidade está no fato de que jamais alguém com o nome “William Doyle” fez parte dos quadros do Daily. Nem jamais houve qualquer nova menção do jornal ao assunto. Estudiosos da imprensa irlandesa chegaram a pesquisar nos cartórios de registros de nascimentos irlandeses se alguma vez alguém com este nome foi registrado e o máximo a que chegaram é quem em 1848, aos 17 de Janeiro, veio ao mundo William Deyle, filho de Mary Deyle e de pai não informado. Seria o mesmo? De qualquer forma não constava como empregado do Daily Cronicle.
O espantoso silêncio do em todos os demais temas que abordava sempre exato e exaustivo Daily Cronicle causou e causa espécie nos meios acadêmicos. Durante muito tempo uma boataria ensurdecedora correu as universidades do mundo inteiro, do que se valeram espertalhões para ganharem alguns trocados publicando em editoras de reputação duvidosa livretos com as mais variadas teorias conspiratórias, que chocavam pelo absurdo e que por isto mesmo ganharam alguma fama pela sua comicidade. Bobagens à parte, restou a curiosidade não saciada e que agora volta à tona com a revelação, pelo “Orient Star”, de Shangai, que uma expedição está de partida para a Ilha de Chipre à busca de vestígios da permanência de livros-objetos da antiga Biblioteca de Alexandria.
A expedição, internacional, está composta de filólogos, historiadores e alguns outros cientistas. Está sendo financiada por um grupo de investidores de diversos países que pediram sigilo sobre suas identidades. Não há garantia de divulgação universal de seus resultados – ou da falta de. A única informação concreta sobre o empreendimento obtida pela reportagem do Orient Star, e que foi autorizada a divulgar, é que não está o projeto ligado a nenhum governo.
Tudo o que cerca esta história é cheia de mistério. Se não há sequer aceno que poderemos saber se algo sobrou mesmo do incêndio da Biblioteca, por que especular sobre o assunto? Uma jogada publicitária? Mas, se for isto, parece ser um investimento de alto risco para duvidoso e pouco retorno. Afinal, não é por nada não, mas fiquei sabendo disto tudo há meses e só estou lendo agora no Brasil neste meu blog mesmo, parece piada.
Piada mesmo, e só rindo pra não morrer de medo, é que se a gente procurar em qualquer mecanismo de busca da internet, qualquer, pode ser o Google, o Yahoo, o Clusty, o Exalead ou este novo, o Cuil, não vai encontrar absolutamente nada sobre o assunto. No entanto, e não estou dizendo ouvir estrelas, asseguro que todas estas informações me vieram da internet, pena que não salvei. A história toda parece com aquele verbete único da edição única da Britannica que Jorge Luis Borges encontrou em um de seus contos.
Um dos trechos de “Vidas em Nossos…” teria sido a base para Platão divulgar sua – agora nossa – Atlântida. Muitas e muitas outras histórias são atribuídas a este mítico livro. Excertos (mal) copiados teriam sobrevivido ao terrível incêndio, chegando às mãos de místicos de todos os tempos e lugares. Sua autoria, se é que este livro existiu, ou existe, é totalmente desconhecida.
Quando conversei sobre o assunto com um professor de Filosofia daqui de São José, sua reação me fez lembrar aquela frase que não sei traduzir direito: “Eu não acredito em fantasmas, ah, mas que eles existem, isso existem!”.
Uma de suas (do livro) “lições” teria sido aproveitada num livro que infelizmente esqueci o nome, fez sucesso, que diz que quando alguém descobre exatamente de onde veio o mundo e para que foi feito ele imediatamente acaba e outro mundo mais incompreensível é imediatamente criado; há quem diga que isto já ocorreu.
Em outra passagem constaria a revelação que em algum momento de nossa aventura humana na Terra descobriríamos como viajar no tempo, tanto para o futuro como para o passado. Contaria ainda que isso já está ocorrendo.
Em um outro seu trecho diria o livro que viemos de certas estrelas, que algum dia voltaremos para lá.
Já uma outra sua interpretação entende que já voltamos.
Não, gentil público leitor, nada diz o livro sobre como ganhar na mega-sena, ao que eu saiba, e desta maneira amena, prosaica e voltando à terra termino o artigo.
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Desculpem a ausência.
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Sugestão musical: Juliette Gréco, “Detournement”.
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AVISO: Neste Blog pode-se fumar.
September 18, 2008 at 4:14 am
Sua ausencia, dolorosa em mim, é sempre perdoada…Porque assim, eu sobrevivo…dessas migalhas…beijos
September 18, 2008 at 7:55 pm
Olá, Mauro!!
Muito bom voce ter voltado!
Abração
September 19, 2008 at 1:44 am
Mauro,
Com o advento do lanamento do livro da Fal e da formação do clube de leitura, voei por outros céus!!!! Comi o Minúsculos, acho que fui a primeira compra dele pela internet, hehe) Amei. Chorei. Sou a Alma.
E empeze a leitura apaixonada de O tempo e o Vento. Saga que acompanhei primeiro quando ainda era adolescente e minha tia/madrinha, que me levou a trabalhar no antigo comércio e indústria, foi vendida, junto com o cujo e no Nacional recebeu a tarefa de organizar a bilioteca do próprio, ocasião em que se esbaudou (isto tá certo??heh) de tanto ler e apaixonou-se perdidamente por um certo Capitão Rodrigo, paixão esta espalhada e divulgada aos sete mares e todos os ventos. Depois na Mini-Série, com belíssima trilha sonora de Tom. Por incrível que pareça, nunca tinha lido.
E agora, junto com pessoas especiais, começando esta novidade de leitura virtual… Adorando…. Bem vindo de volta à realidade virtual.
Beijo!
September 19, 2008 at 1:46 am
Mauro,
arrepare não, quando não é teclado que emperra, é a pressa que faz com que eu escreva errado, faltando letras, acentos….Ou não! hehe
September 19, 2008 at 6:53 pm
Tá… que é permitido fumar nesse blog a gente já percebeu, tentando acompanhar o raciocínio deste texto. Cigarrinho do capeta, por óbvio, hehehehe…
September 20, 2008 at 5:17 am
genial, mauro.
September 23, 2008 at 12:13 am
mauro, jorge luis borges nos espreita.