Hino

By uirapuru

Nos meus tempos de ensino fundamental, que na época chamava-se primário, e depois no que então chamava-se ginásio, e entre estes havia um ano chamado de admissão ou era depois do ginásio, nem me lembro mais, aprendemos que as cores da bandeira representavam o verde de nossas matas, o amarelo de nossas riquezas, o azul de nossos céus e o branco da esperança.

Ano passado vim a descobrir que tudo isto era uma tremenda cascata, veleidade poética de quem quis justificar a escolha de nossas cores, que tiveram sua verdadeira origem nas cores das bandeiras das famílias nobres européias que fizeram aliança para partilhar as terras recém-descobertas, esta parte da América.  Alianças firmadas por casamentos e só me resta desejar que os nubentes tenham tido algum amor um pelo outro, melhor pensar assim.

Fomos ensinados a respeitar e tentavam a todo custo nos ensinar a amar nossos símbolos pátrios, dentre eles o hino. Sempre tive uma queda especial pelo Hino da República, a expressão “pálio de luz desdobrado” me cativou e a palavra “liberdade”, entoada duas vezes, chamada a intervir, a nos amparar, acho que já falava para algum canto oculto da minha consciência adolescente.

O hino da independência e o da bandeira prestavam-se a inúmeras paródias, a maioria de humor chulo, que a meninada de minha época apregoava na hora do recreio, baixinho, acho que isto fez eles  perderem muitos pontos- os hinos, os meninos nunca tivemos ponto algum.  O da Marinha sempre fazia-me lembrar algum filme da Disney, ficava parado com a imagem de um cisne branco em águas tranquilas e não prestava atenção no resto. Não nos ensinaram outros.

Toda semana a gente era obrigada a cantar o Hino Nacional. Acho que por isto é que desde cedo achei ele antipático. E demorado, puxa, como ele é demorado. Não sei se as versões completas dos hinos dos demais países são as que gente ouve nas disputas esportivas, mas sei que o nosso teve que ser encurtado à fôrça para esta finalidade.

Depois que o fim da mais recente escancarada ditadura permitiu um exame menos apaixonado de todas estas coisas, percebi que nosso hino tem uma melodia muito bonita. A letra teria mesmo, na minha opinião, de ser alterada, aquele “deitado eternamente em bêrço esplêndido” compromete todo o resultado. É algo que teria que ter fim, como o “ordem e progresso” da bandeira, por alusão ao ridículo. Caramba, é só ordem e progresso que nós queremos? E se não tiver nada escrito na bandeira, isto quer dizer que é “desordem e retrocesso”? Não quero comprar nenhuma briga com a turma do positivismo nem tenho bagagem para tal, mas está mais para lema de uma empresa comercial que para a expressão dos anseios ou da realidade de uma nação. Acho uma grande bobagem este dístico. Bem, voltando ao hino, tirando esta parte da letra, a melodia é sim bonita. 

Poderia ser menos banalizada sua reprodução. Adornos especiais para momentos especiais. Executou-se e executa-se o hino para qualquer coisa, desde abertura de uma disputa esportiva menor até inauguração de bebedouro em algum bairro do centro ou da periferia. 

Confesso que me emociono, às vêzes, quando ouço o hino nacional, em certas ocasiões muito especiais. Ou quando o cantei, em ocasiões da vida adulta mais especiais e perigosas ainda. E confesso também que certa feita em Brasília, ao ver a enorme bandeira nacional tremulando, chorei em silêncio, a danada é bonita.

Voltando aos hinos, hinos de países, os três mais lindos para mim são o da França, o dos Estados Unidos e o da Inglaterra, este último em primeiro lugar. Estou falando apenas das melodias, deixemos as letras pra lá. A resistência durante a segunda guerra mundial, na Europa, criou hinos maravilhosos, letra e música, as canções dos partisans.

Cada um de nós tem um hino, não tem? Não estou falando da trilha sonora a que me referia noutro post, mas sim de um hino. Também tenho o meu, ou melhor, vou trocando de vez em quando, ou eles é que me procuram um de cada vez, não sei ao certo.

Meu hino desde o inverno passado é e não me perguntem o porquê porque não sei responder, este:

“Eu ando pelo mundo prestando atenção
em cores que eu não sei o nome
cores de Almodóvar
cores de Frida Kahlo, cores
passeio pelo escuro
eu presto muita atenção no que meu irmão ouve
e como uma segunda pele, um calo, uma casca,
uma cápsula protetora
eu quero chegar antes
pra sinalizar o estar de cada coisa
filtrar seus graus
Eu ando pelo mundo divertindo gente
chorando ao telefone
e vendo doer a fome nos meninos que têm fome

Pela janela do quarto
pela janela do carro
pela tela, pela janela
(quem é ela, quem é ela?)
eu vejo tudo enquadrado
remoto controle

Eu ando pelo mundo
e os automóveis correm para quê?
as crianças correm para onde?
transito entre dois lados de um lado
eu gosto de opostos
exponho o meu modo, me mostro
eu canto para quem?

Pela janela do quarto
pela janela do carro
pela tela, pela janela
(quem é ela, quem é ela? )
eu vejo tudo enquadrado
remoto controle

Eu ando pelo mundo e meus amigos, cadê?
minha alegria, meu cansaço?
meu amor cadê você?
eu acordei
não tem ninguém ao lado

Pela janela do quarto
pela janela do carro
pela tela, pela janela
(quem é ela, quem é ela?)
eu vejo tudo enquadrado
remoto controle”

 

Obrigado, Madame Adriana Calcanhoto.

Ah, por falar na autora do meu hino, quando tiverem um tempinho, visitem http://www.adrianacalcanhotto.com/mare/index.html#

Que site bonito!

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Sugestão musical: “Chão de Giz”, Zé Ramalho.

7 Responses to “Hino”

  1. uirapuru Says:

    Ah, ia me esquecendo, um dos charmes do site da Adriana é quando você passa o cursor do mouse sobre as fotos, as palavras. Dá quase pra ver o mar.

  2. claudia lyra Says:

    Olha, querido, sinto muito, mas esta música já é o MEU hino. Excrusívio, aprendi a tocá-lo no violão. Cê sabe fazer isso? Pois então… Teremos que, no mínimo, compartilhá-lo.
    Vamos lá na Prefácio dia 09? Aí cantaremos nosso hino pra todas as falmigas. Que tal?

    Taí, Claudia, a gente já pode proclamar nossa independência e virar uma república independente. Ou até uma monarquia. Topo monarquia se tiver eleição direta pra rainha, com direito à reeleição. Títulos de nobreza também é na votação, com exceção de nós dois. Você desde já é a Duquesa de Resende e Volta Redonda, ou o que você escolher. Eu posso ser Visconde de Mim Mesmo. O que você me diz? Um dia ainda aprendo violão. Mais de meio caminho está andado, tenho um, que ganhei há trinta e cinco anos, presente de aniversário. Já tenho o método também, este eu comprei. Tá tudo engatilhado, tá tudo dominado, como dizia a canção. Estou com vontade sim de ir pra Prefácio, só não sei se vai dar. Adorei “excrusívio”, posso usar nas minhas conversas informais?

  3. claudia lyra Says:

    ADOREI O SITE DA ADRIANA!!!! Fui assistir a esse show. É lindo! Você já foi?

    Claudia, muito lindo o site, né? Não fui assistir o show não, deve ser um encanto. Deixa dar uma dica de cantora? Quando tiver oportunidade, visita o http://www.myspace.com/joanaduah
    É a irmã da Bela, do Falmigas. Fiquei e estou embasbacado com a Joana, não conhecia. Estou na fila aguardando o lançamento do CD. Não compreendo como é que ainda não cativou a grande indústria fonográfica. Enfim.

  4. Fal Says:

    eu tb presto muita atenção no que o meu irmão fala.

    Sei que sim, Fal.

  5. claudia lyra Says:

    Moço, seu violão é quase da idade do meu! Mentira… né não… o meu vai fazer 25 anos em outubro e também foi presente de aniversário.

    Joana Duah é boa por demás, não é? É claro que conhecia, pois Belusca nos passou o endereço do myscape num daqueles nossos emelhos enroscados.

    A grande indústria fonográfica é uma belezura, né não? Dá oportunidade para as Kellys Keys da vida e deixa uma Joana maravilhosa Duah sem muita visibilidade… ai, ai… é o mundo, é o mundo… :(

    Claudia, não consigo compreender o que acontece. Será que este pessoal é tão incompetente que acha mesmo que as gravadoras não ganhariam dinheiro divulgando mais uma artista deste nível? Dá até para imaginar quantas e quantos artistas continuam e continuarão no quase anonimato, num país do tamanho deste, se a política cultural continuar sendo decidida pelo deus mercado, ou melhor, pelos seus auto-intitulados procuradores. E isto em todas as áreas. Pra ficar apenas na música, o jornalista Gilberto Dimenstein divulgou há umano, ano e meio, uma história linda e triste ao mesmo tempo. Um rapaz brasileiro, um adolescente, hoje deve ter seus vinte anos, estava sendo convidado pela Orquestra Filarmônica de Israel para se apresentar com eles num concerto, como solista de violoncelo. Ouviram o rapaz por acaso no Brasil, encantaram-se, abriram as portas do circuito internacional da música clássica para ele. Este rapaz morava então numa favela em São Paulo e usava a bolsa que havia recebido – bolsa é modo de dizer, era uma ajuda de custo que uma pequena empresa lhe dava – para pagar suas quatro passagens de ônibus diárias para estudar violoncelo num conservatório no centro da cidade. Era o único membro de sua família que gostava e queria estudar música clássica, e este instrumento, que ouviu por acaso quando mais novo, numa rádio. Foi atrás daquilo que o seduziu, ganhou as graças dos professores, tocava em instrumento emprestado, que coisa, não?
    Daí, depois de algum tempo, vem uma orquestra de renome e o reputa como uma pedra preciosa.
    Quantos outros talentos não haverão por aí, sem esta mesma sorte. Digo, sem que nós tenhamos a sorte que eles sejam descobertos?
    Daí voltamos ao nosso hino: “…as crianças, correm para onde?”

  6. telinha Says:

    ah, uirapuru, eu lembro que numa copa do mundo o povo resolveu traduzir a marselhesa. e aí eu via aquelas crianças vestidas com o bleu blanc rouge dizendo que vinha aí neguinho matar nossas mulheres. e eu achei muito bárbaro. o hino da gente é essa coisa que é quase bossa nova: deitado, berço, som do mar, céu profundo…

    meu hino? ixe, eu não sei, as coisas mudam muito. hoje é “you´re still you”, com josh groban. suspiro só de lembrar. peraí que vou pegar a letra.

    “You’re Still You”

    Through the darkness
    I can see your light
    And you will always shine
    And I can feel your heart in mine
    Your face I’ve memorized
    I idolize just you

    I look up to
    Everything you are
    In my eyes you do no wrong
    I’ve loved you for so long
    And after all is said and done
    You’re still you
    After all
    You’re still you

    You walk past me
    I can feel your pain
    Time changes everything
    One truth always stays the same
    You’re still you
    After all
    You’re still you

    I look up to
    Everything you are
    In my eyes you do no wrong
    And I believe in you
    Although you never asked me to
    I will remember you
    And what life put you through

    And in this cruel and lonely world
    I found one love
    You’re still you
    After all
    You’re still you

    todo meu carinho prá você, passarinho.

    Oi, Telinha, mais uma canção que eu não conhecia, já já que vou ver se encontro na rede.
    Vou pedir pro meu representante na Câmara Federal e meu representante no Senado pra levantarem uma discussão sobre o hino. Tenho propostas muito claras: a primeira é abolir a letra, fiquemos só com a melodia. A segunda é ter um hino, um outro, apenas para competições esportivas, a ser escolhido. A terceira é sobre quando será permitida a execução do hino oficial, este ora em vigor, refiro-me à sua execução em cerimônias públicas oficiais: o hino será executado apenas em caso de vitória em guerra, ou conquista de paz honrosa.

  7. telinha Says:

    mauro, me disseram que é só acelerar o andamento do hino que ele vira um frevo.

    mas ora, ora, se acelerar qualquer coisa vira frevo, né não? :D

    Hahahaha, adorei!

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