Interrompemos nossa programação normal para

By uirapuru

Sou fã do horário eleitoral. Adoro. Por mim teria um canal vinte e quatro horas por dia, todos os dias do ano, só para o horário eleitoral. Os três meses atuais são pouco, e só de dois em dois anos muito pouco. Bem entendido, refiro-me apenas aos programas televisivos de candidatos, e programas tosqueira. Eventual programa que tenha algum conteúdo cairá tão mal como cantor de qualidade em programa de calouros. Quem está preocupado com a música?
Seria interessante comparar as declarações dos candidatos e candidatas conforme as estações do ano, por exemplo.
Só os temos, os candidatos, durante fins de inverno e comêço de primavera. Que nos diriam no outono? Como reagiriam ao verão?
Com mais tempo, teríamos mais debates, com mais participantes e com regras mais flexíveis. Não há nestas eleições, por exemplo, espaço para debates entre candidatos a vereador na televisão! Quanto perdemos nós!
Atualmente, nos debates que assistimos, quando um candidato pergunta pra outro candidato a regra é assim:
- o candidato que pergunta tem 30 segundos para perguntar;
- o candidato que responde tem dois minutos para responder;
- o candidato que perguntou tem um minuto para a réplica (acho tão legal esta expressão “para a réplica”);
- o candidato indagado tem um minuto para a tréplica (palavra estranha!).
Então, com mais tempo, teríamos algo assim:
- o candidato que pergunta tem duas horas para sua questão;
- o candidato que responde tem o tempo que quiser para responder, ou não, podendo inclusive insultar o perguntador.
Réplicas, tréplicas, quáplicas e quinplícas serão permitidas à vontade, sem implicância.
Como temos eleições de dois em dois anos para os mais diversos cargos, candidato que ficar pulando de cargo vai ter no mínimo dois anos para fazer campanha, não é bom? E senador eleito, de acordo com a atual regra do jogo, vai ter oito anos pra campanha da reeleição, olha que legal!
Outra vantagem é que nestes canais permanentes – sim, no mínimo dois, um pra tv aberta e outro na tv paga - os candidatos derrotados poderão voltar para dizer porque é que perderam, nas suas opiniões. E vão debater com os vencedores de novo!
Deixa dar um exemplo para voces, um debate imaginário de candidatos a prefeito de São Paulo, por exemplo.

“O mediador:
 - Sr. Candidato Uirapuru, para quem o senhor dirige sua pergunta?
 - Para mim mesmo.
 - Pois não, o senhor tem duas horas para sua pergunta. Por favor avise quando começar a responder para podermos medir o tempo.
 - Na verdade quero dar a resposta primeiro.
 - Neste caso, fique à vontade, mas lembre-se de avisar quando acabar a resposta e começar a pergunta, que terá então o tempo máximo de duas horas.
 - Este tempo de nossa conversa é o quê?
 - É tempo que o senhor está perdendo e tomando da gente. Vai!
 - Sim, obrigado. Muito bem, amiga cidadã, amigo cidadão, minha proposta sobre o trânsito é muito simples. Simples demais, simplérrima, um nojo de simples, chego a me rir de tão simples, hahahahaha. Mas vejam, simples e não simplória. E o que é esta proposta? É a proposta dos dois “Rs”. Rodízio Radical. Atualmente o rodízio é feito conforme os algarismos finais das placas dos veículos e numa região abrangendo alguns quilômetros à volta do centro da cidade. Pra começar, o rodízio vai vigorar na cidade inteira. E nem estacionado na rua poderá ficar. Nem na garagem, a menos que haja um pano cobrindo. Ou jornal, não muito velho.
Hoje, a cada dia da semana – de segunda à sexta – são proibidos sob pena de multa circularem automóveis conforme os algarismos finais de suas placas, sempre em par de dois, tipo 1 e 2 na segunda-feira, 3 e 4 na têrça, etc…
No RR todos os automóveis, de todas as placas, estão proibidos de circular de sábado até quinta-feira. Na sexta-feira estão todos liberados. Eu não acho aconselhável saírem de automóvel na sexta, mas estará liberado. Mais: vamos acabar com a indústria de multas. Infrações de trânsito não acarretarão multas. Seus praticantes serão abatidos a tiros. Atiradores de elite estarão a postos em altos prédios, vielas inesperadas e frondosas árvores em formosas pracinhas à busca dos malvados infratores. Com isto vamos resolver também o problema dos moto-boys, de uma vez por todas. E dos flanelinhas, que passarão a engrossar o exército que faz malabares e vende biscoitos, água e chocolates, destinados agora a pedestres. Sim, porque na ante-câmara do inferno que esta cidade vai se tornar na sexta-feira, os motoristas serão seus próprios flanelinhas, porque não vão conseguir andar com seus carros, os teimosos, eu avisei, não avisei?
Mais: farei um convênio com a Secretaria de Cultura para propiciar entretenimento para os incautos motoristas que saírem às ruas com seus veículos nas sextas-feiras. Porque estes ficarão horas, ah, como ficarão, horas no ultrahipermegagiga-congestionamento. E como passar o tempo? Simples: a Prefeitura providenciará mega-fones em cada poste de iluminação, que retransmitirão, direto de nossos estúdios, narrativas na íntegra de grandes filmes do cinema. Um sujeito, pode ser o prefeito, no caso eu, ficarei contando um filme pra quem tá no trânsito, talvez até cantarolando partes da trilha sonora, assim será.”

E isto é só o comêço da “intervenção” do candidato. Como diz a canção, “E o barquinho vai, e a tardinha cai…”

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Voces eu não sei, mas eu não votaria em mim. Aliás, taí um bom slogan que dou de graça para qualquer candidato: “Eu voto em mim.”

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Sugestão musical: “Nessun Dorma”, Turandot, com Pavarotti.

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Boa noite!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

2 Responses to “Interrompemos nossa programação normal para”

  1. Fal Says:

    hahahahaha, adorei!!! sabe que eu não tenho mais visto? Essa semana eu vou me esforçar, camarada.

    E está terminando! Hoje, sábado, é dia dos candidatos às Câmaras Municipais. Peço tua especial atenção para o uniforme dos candidatos do PRTB, o partido do Levy Fidelix, para seus gestos místico-esotéricos, o brilho de seus olhos e a candura de seus sorrisos. O cântico “Vitória! Vitória! Vitória!” da turma do 27 também é marcante. Mas todo o horário é atraente, é bom, firme e valioso.

  2. claudia lyra Says:

    Caraca… essa de contar o filme por megafones é perfeita!!! Deveria ser instituída essa medida nos presídios também. Duvido alguém voltar à criminalidade se se lembrar do que passou na prisão com uma coisa dessas. Duvido!

    Uma boa também seria transmissão radiofônica de jogo de xadrez, de paciência, de video-game. Vídeo-game transmitido pela rádio, olha que genial!

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