De domingo 12 aos primeiros minutos deste domingo 19, me pareceu que “a ampulheta do tempo disparou”, como está tal qual o Chico Buarque escreveu em “Almanaque”. Impressão minha ou foi isto mesmo?
Da pergunta final da propaganda da campanha de Marta divulgada no domingo, passando pela reação da maior parte das “grandes” mídias a esta propaganda, passando pela batalha campal entre duas polícias de um mesmo estado, no caso São Paulo, e de um mesmo patrão, de novo passando pela reação das “grandes” mídias a este episódio e culminando com a tragédia de Santo André, com a continuação de seu epílogo neste fim de sábado e – de novo! – passando pela reação das “grandes” mídias (neste caso, até agora, parte das “grandes” mídias) confesso que fiquei perambulando por tudo quanto foi blog, órgão de imprensa com página na internet, não deu tempo ainda pra ver o que falam sobre o assunto as imprensas e blogueiros estrangeiros, pra tentar entender o que está acontecendo. Com o mundo. E comigo.
A última frase refere-se a um fato que não sei se todo mundo já se deu conta, que quando a gente sai procurando uma informação, ou informações, sobre um fato, muitas vezes estamos procurando um texto que mostre o que nós mesmos estamos pensando. Quando a gente encontra, não é que uma verdade caiu do céu e nos iluminou a todos, dá aquele estalo e a gente fala: é isso! A gente reage assim porque em algum canto da nossa mente a gente pensava daquela maneira e não conseguia articular racionalmente um conceito, uma idéia, que dirá formular em palavras.
Ah, acho que nem preciso dizer que está todo mundo autorizado a falar: ei, “a gente” conversa! Não pense que todo mundo é burro que nem você. No que vou concordar e jamais disse o contrário. Tenho uma grande facilidade em imaginar que todo mundo pensa como eu, gosta das mesmas cigarrilhas que eu e torce pelo mesmo Santos que eu. Se bem que neste último caso apenas seria um caso de bom gosto.
Voltando aos assuntos, comecemos pela propaganda. Assim que a vi, pensei comigo: “Ah, isso não ficou bom.” Entendi desde o comêço que foi uma iniciativa desastrada do marqueteiro. Não conseguia entender, como não consigo ainda entender, que Marta ou mesmo alguém do comando de campanha tivesse qualquer participação na escolha daquelas frases, que aliás pra quem não viu só perguntava isto mesmo, sobre o adversário de Marta na campanha, Kassab: “ele é casado? tem filhos?”. Estas duas perguntas seguiam-se a outras onde perguntava-se sobre se alguém sabia da história política de Kassab. Achei que as perguntas pessoais eram tolas porque colocavam no mesmo nível questões de níveis diferentes, se Kassab teve e tem compromisso político com Pitta e Maluf, isto, a meu ver, é incomparavelmente mais importante do que a vida particular do candidato. Também me ocorreu que se fosse uma tentativa para uma campanha pra divulgar que Kassab é homossexual e que por ser uma figura pública teria que assumir esta posição publicamente, seria uma grande bobagem do marqueteiro, a propaganda não seria entendida assim e seria cometido mais um erro de qualquer propaganda mal feita, que é o de confundir mensagens. Por fim, como teria debate na Record mais tarde, pensei bem quietinho no meu canto que teria sido uma tentativa estúpida de desequilibrar o Kassab. Fiquei e tenho a impressão que Marta soube desta propaganda apenas depois que foi ao ar e nem vou invocar suas posições públicas sobre o universo GLBT, e o alto prêço, inclusive eleitoral, que pagou (paga) por estas posições. Esta impressão deveu-se pura e simplesmente porque é difícil acreditar que alguém em campanha numa cidade como São Paulo, com centenas de compromissos de campanha por dia, com horas de memorização de dados para participação em debates e entrevistas, etc… e etc… e os etcéteras que envolvem uma campanha, inclusive o cansaço físico e emocional e sabendo-se que o dia tem 24 horas, iria encontrar tempo para dar palpite numa propaganda de TV. E isto sabendo-se também que há marqueteiros e cada vez mais estas pessoas são pagas, e não com pouco, para fazer o que fazem. É razoável acreditar que neste meio, o dos marqueteiros eleitorais, de tanta concorrência como o é o do mercado da publicidade, o marqueteiro não tenha espaço para manobra e espírito de iniciativa? A impressão que Marta não teve participação na escolha desta linha de propaganda – linha que aliás não houve e ficou apenas nestas duas perguntas mesmo – foi que algumas pessoas de notória oposição à Marta, jornalistas com blogs de notícias políticas de grande audiência, apressaram-se, antes mesmo da gente até refletir sobre a propaganda, em divulgar que Marta participou da escolha do material e que seria impossível que ela não o fizesse. Achei estranhas estas afirmações e despropositadas. Entendi depois o propósito, quando se viu uma avalanche de artigos e posts e declarações nas TVs e Rádios condenando a candidata. E centraram fogo na pessoa dela, se você ler atentamente tudo que foi escrito e que ainda está na rede, dá a sensação que só falta dizerem que o marqueteiro obedeceu ordens de Marta e do marido, Luis Favre, para que aquela propaganda fosse ao ar. O que logo no comêço da divulgação da peça publicitária já seria difícil, o marqueteiro admitir o erro – o que só veio a fazer dias depois – e o comando de campanha idem, censurando o marqueteiro e Marta idem, desautorizando publicamente a propaganda, dizia que já seria difícil porque um ser humano admitir erros é sempre difícil, que dirá de público e que dirá num meio tão competitivo e feroz – isto para o marqueteiro e para o comando da campanha – e a duas semanas das eleições e com pessoas de confiança – isto para Marta – tornou-se impossível depois do dilúvio de hipocrisia que se assistiu.
A mesma Folha de São Paulo que dedicou páginas e páginas para explorar a separação de Marta e do senador Suplicy, que escarafunchou as vidas de Luis Favre, de Marta, dos filhos, apregoa em suas páginas textos e mais textos mostrando cara de chocada com uma desde já e para sempre insinuação sobre a orientação sexual de Kassab. A revista Veja, que só pelas capas já mostrou diversas vezes seu tom desequilibrado e de mau gosto – o Presidente Lula com uma marca de pontapé nos fundilhos, o então candidato Garotinho desenhado com chifres de diabo, das que me lembro agora – e com articulistas que fazem de seu (aparente) ódio ao PT e a quem milita no PT e a quem vota no PT seu ganha-pão, como os senhores Diogo Mainardi e Reinaldo Azevedo (o primeiro tem um livro à venda chamado “Lula é Minha Anta”; o segundo acaba de lançar “No País dos PeTralhas”; cito os livros pra quem teve e tem a sorte de não os conhecer para avaliar o nível dos debates que empreendem) – e que caracteriza-se por sua oposição sistemática a tudo que julga contribuir para o sucesso do governo Lula (além de estar famosa também, no momento, por conta de mal explicadas relações com o banqueiro Daniel Dantas e outros episódios, conforme pode ser lido à exaustão no blog de Luis Nassif) assim publicou em sua última edição a título de informação para seus leitores: ” a petista desceu ao subsolo ao divulgar um comercial de TV com especulações maliciosas sobre a sexualidade do prefeito Kassab, de 48 anos, solteiro e sem filhos.” Fico só nestes dois exemplos porque são inúmeros. Para quem quiser saber com mais detalhes até onde chegaram, se visitarem “O Biscoito Fino e a Massa”, o blog do Professor Idelber Avelar, tem uma matéria excelente com data de 15 de Outubro, se não me engano. Outro blog que vale visitar é o de Luis Favre, marido de Marta.
Este post já está ficando muito grande e de novo tenho que me lembrar do que escreveu certa vez Oscar Wilde a um amigo, numa carta: “Desculpe-me a extensão do texto, não tive tempo para ser conciso.” Não foi exatamente isto, mas o sentido foi este. Parece piada mas não é: concisão exige tempo, burilar palavras demanda esforço – nem vou dizer talento porque se não vou chorar. Mas deixa terminar este primeiro tópico dizendo que de minha parte, que estava até meio distante da campanha, só o que fez esta reação da “grande” mídia ao episódio, agindo não como imprensa livre e informativa (que tenha opinião e assuma, bolas! não se esconda atrás de uma pretensa neutralidade; procurem e vejam se algum destes órgãos assume publicamente suas preferências partidárias, da Globo até qualquer jornal passando por todas as revistas excetuando-se Carta Capital – neste caso nem é preferência partidária, Carta Capital declarou-se diversas vezes não “ser” do PT, até é a que mais crítica com conteúdo faz ao governo Lula mas sim assumiu publicamente nas eleições presidenciais seu voto em Lula e inclusive afirmou que o fazia por considerá-lo o candidato mais adequado para promover um diálogo frutífero entre as diversas forças da nação) mas sim, agindo como um grande panfletão (coisa que também não entendo é porque sendo apenas panfletos e ainda contendo propaganda paga, ainda são vendidas e não dadas, como estes folhetinhos que nos dão nas ruas!), bem, dizia eu, a reação em mim foi a de querer fazer campanha para Marta também, daqui de São José dos Campos.
Bom, quero deixar bem claro, para quem ainda tenha alguma dúvida, que meu problema com o Sr. Kassab não é porque ele seja só ou acompanhado, hetero ou homo. Entendam como uma brincadeira que não posso deixar de fazer para não perder a oportunidade e talvez fique até engraçadinha: não gostava de Rock Hudson não porque não tínhamos os mesmos gostos, mas porque ele era canastrão. Meu problema com o Sr. Kassab é porque ele vem e é de um partido que representa o de mais atrasado que há no país, em que as correntes “progressistas” já deixam às vezes a desejar, que dirá as atrasadas.
Como no finalzinho dos episódios de “Heroes”: To Be Continued…
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Sugestão Musical: “Senza Fine”, de e com Gino Paoli. Apague a luz, acomode-se, feche os olhos – e viaje.
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Bom dia!
(Cantar, nunca foi só de alegria, em tempo ruim, também se diz bom dia…)