Antes de prosseguir com algumas reflexões sobre a semana passada, uma errata: o debate que ocorreria, que falei seria na Record, seria como foi na Bandeirantes; num parágrafo engoli duas palavras, bobagem que prejudicou o entendimento de uma frase, coloco-a agora corretamente: “A impressão que Marta não teve participação na escolha desta linha de propaganda – linha que aliás não houve e ficou apenas nestas duas perguntas mesmo – foi reforçada por notar que algumas pessoas de notória oposição à Marta, jornalistas com blogs de notícias políticas de grande audiência, apressaram-se, antes mesmo da gente até refletir sobre a propaganda, em divulgar que Marta participou da escolha do material e que seria impossível que ela não o fizesse.”; acho que tem mais um errinho por engolir palavra em outro parágrafo mas não compromete a compreensão, sigamos com nossa programação normal.
Começo falando sobre os dois episódios outros marcantes da semana passada pelo fim oficial deste já abordado. Chamo de fim oficial porque só poderia ocorrer como realmente ocorreu: um pedido público de desculpas da candidata Marta, no debate de ontem este sim na Tv Record, ao candidato Kassab, mesmo afirmando que não sabia do conteúdo da propaganda e ressaltando que ficou espantada com a dimensão que o caso obteve. É o fim oficial mas talvez não seja o fim de fato. Sempre haverá quem duvide das palavras de Marta ou faça exploração eleitoral do fato, ou melhor, não é que “sempre haverá” e sim que “provavelmente haverá”. Cada qual vai se ver numa situação, talvez, de a priori ”querer” acreditar ou “querer negar”. Neste caso só ela, o marqueteiro e algumas pessoas muito próximas deste marqueteiro sabem a cristalina verdade. É uma questão de escolha. De minha parte escolho acreditar na candidata.
Como escolho dar uma chance ao Governador Serra, sobre os outros dois episódios, este é o “gancho” entre os dois assuntos.
Pra não iludir ninguém nem dar a mais leve impressão que esteja querendo fazer isto, de novo deixo bem claro que continuo votando e filiado ao PT. Talvez dê para colocar nestas palavras: não é a ferramenta perfeita com a qual eu sonhava mas é a melhor com que posso contar no momento, para construir um país melhor para todos viverem. Mais: se for para o PSDB ganhar as eleições em 2010, que seja com o governador de Minas Gerais, o Sr. Aécio Neves, que me passa aqui de longe a impressão de ser uma pessoa de diálogo, não arrogante e também competente. Se estiver errado por favor alguém melhor informado me corrija. Deixo então bem claro que acho que uma eleição do Sr. José Serra como presidente do Brasil seria a exportação dos problemas de São Paulo para todo o país. Segurança pública, por exemplo, pra ficar no tema que estamos tratando.
Mas digo que escolho dar (mais) uma chance para o Governador Serra é porque ele tem, como Marta teve, a oportunidade de voltar atrás, apontar claramente para a sociedade o que pensa, mesmo que não seja a pessoa diretamente responsável pelo que aconteceu.
Explicando: no auge de um movimento grevista que já durava um mês, com negociações emperradas desde o primeiro semestre, os policiais civis de São Paulo, que têm os piores salários do país (inferiores a de seus colegas de outros governos do PSDB, informam os jornais) fazem uma passeata para que uma comissão de negociadores seja recebida pelo governador. A passeata é barrada, há troca de tiros, feridos de ambos os lados, duas polícias que brigam – e não duvidem, sequelas ficarão independente do resultado da campanha salarial – numa praça de guerra, erros dos dois lados e o que ouvimos do Governador Serra? Uma das suas frases foi, a que mais destaque obteve da mídia, de que foi um movimento político-eleitoral patrocinado pela Fôrça Sindical, pela Cut e pelo PT. Dizer que os manifestantes estavam usando um carro de som da Força Sindical é prova que a movimentação foi arquitetada por esta central sindical? Dizer que um deputado do PT estava entre os manifestantes é prova também da responsabilidade do PT? Sem contar que é difícil entender como é que a adversária de Kassab colheria algum fruto eleitoral num conflito entre duas polícias estaduais. Se o eleitorado atual de Kassab não se importa, como parece não se importar, com o fato dele ser filiado ao DEM, porque se importaria com o modo como Serra trata seus policiais, categoria aliás que não goza da simpatia da população? Mesmo que isto fosse verdade, que é cabível acreditar que os policiais civis de São Paulo todos usam estrelinhas vermelhas no peito, que de repente passaram a seguir orientações dos baderneiros e insensíveis e aves de mau agouro petistas, mesmo que todo este absurdo fosse real, pergunto como outros e com muito mais talento, por exemplo, Luis Nassif em seu blog, perguntaram: e daí? Atribuir a “culpa” da iniciativa do movimento a “A”, “B” ou “C”, explica, e só explica, não resolve. Se foi tudo isto mesmo, qual é então a solução? Não há? Se o Governador Serra acredita mesmo que isto é verdade, o Governador exige então a rendição completa dos policiais, que esqueçam suas reivindicações salariais? Voltando ao dia da manifestação, por que o Governador Serra, ou seu secretário de segurança, ou algum dos seus secretários com poder de representá-lo não recebeu uma comissão dos grevistas? Ora, converse com os grevistas e, se for o caso, ao mesmo tempo denuncie eventual exploração político-eleitoral do episódio. Escondeu-se o Governador numa teoria conspiratória de tanto gosto da opinião pública para continuar com sua disposição de intransigência.
Qual é a oportunidade que se apresenta ao Governador Serra? A de mostrar-se grande e desculpar-se perante as duas centrais sindicais e a um partido político por atribuir-lhes, por haver feito isto, responsabilidades para as quais não há informações que as comprovem.
Isto é difícil. Sem dúvida. Difícil é como difícil deve ter sido também para Marta desculpar-se de público e a uma semana das eleições. Para atenuar-lhe o desconforto ele poderia lembrar-se que não está disputando eleições, ele pessoalmente, nesta semana – por mais que tente-se enxergar tudo isto como uma prévia de 2010 não dá pra concluir isto assim tão graciosamente – e que tal gesto até ajudaria seu candidato. Poderia mirar-se no exemplo do Presidente Lula, que enfrentou uma série de greves no seu governo, de funcionários públicos, agora mesmo está com as dos bancários do Banco do Brasil, da Caixa Econômica Federal, enfrentou não sei quantas do pessoal dos Correios e não se viu em momento algum colocar a culpa no PSDB, ou no DEM, ou em qualquer partido que seja.
O Governador Serra está construindo uma imagem cada vez mais sólida de uma pessoa intransigente. Tem esta oportunidade de mudar esta imagem.
A segunda chance refere-se à tragédia de Santo André. Fiquei quase azul do tanto que li a respeito do assunto, saltando de jornal em jornal e de blog em blog. Dos colunistas aos comentaristas, li de tudo, tudo quanto é tipo de opinião. Cheguei a algumas conclusões, a primeira foi de que teríamos que escolher exatamente sobre o que nós, que não vivemos as vidas das duas meninas, do criminoso, das famílias, dos policiais diretamente envolvidos, dos profissionais de imprensa idem, teríamos que escolher exatamente sobre o que nós poderíamos concluir. Realmente é muito fácil resolver problemas policiais depois que eles terminaram. Se isto, se aquilo. Também é fácil procurar alguma falha no comportamento das famílias, ou no das meninas, uma das coisas que mais li é que tudo começou porque uma garota de doze anos começou a namorar. Acho que há limites sobre o que a gente pode escolher expressar opiniões. Penso que se meter nos assuntos das famílias, ou entrar em detalhes sobre como negociar com o rapaz são ou descabidos ou puro palpite. Podemos sim, acho, e devemos, discutir aspectos fundamentais da ação policial para que corrijam os responsáveis o que foi errado e reforçem o que foi certo. Não é assim que as sociedades crescem?
O único aspecto policial, ao menos por enquanto e até não sair, se sair, toda a verdade sobre o momento da invasão do apartamento, que eu quero chamar a atenção é que a autorização policial para que a refém que já estava fora do cárcere privado em que estava voltasse, foi dada. A polícia afirma que não autorizou a menina Nayara a voltar ao apartamento e sim até uma distância “segura” para conversar com o criminoso. Parem um momento e reflitam sobre este procedimento. Fico me perguntando se fosse uma pessoa adulta, se ainda assim a polícia não teria obrigação de impedir, mesmo que fosse a vontade desta pessoa voltar a estar ao alcance físico de um criminoso. E era uma adolescente. Afirmou o coronel responsável, categoricamente, que agiria desta maneira se fosse com um de seus filhos. Perguntado diretamente se autorizaria um filho seu a agir como Nayara, afirmou que sim.
Não sei voces, mas supondo que o coronel não tenha mentido, penso que o modo como ele agiria em relação aos próprios filhos não seria diferente do modo como agiria em relação aos meus. Eu não teria o direito e mesmo que tivesse não teria êxito em lhe pedir que tratasse meus filhos de um modo diferente do que o coronel trataria os próprios. E este modo do coronel não me tranquiliza, ao contrário, assusta. Tenho, a exemplo dos pais das duas jovens da tragédia, filhas jovens também. Também têm muito amor por suas amigas e consigo vê-las perfeitamente implorando para assumir o papel de Nayara se uma de suas amigas fosse a Eloá. Como pai, exigiria dos responsáveis pela segurança pública que impedissem minhas filhas, se eu não estivesse por lá e se mais ninguém não “estranho” não conseguisse impedi-las. Esta maneira do coronel de ver as pessoas, inclusive os próprios filhos, não me serve. Julgo não estar sendo leviano nem pretensioso ao acreditar que não sirva à sociedade.
Não podemos impedir um pássaro de pousar em nossas cabeças. Podemos impedi-lo de fazer ninho. Isto vale para maus pensamentos, isto vale para consertar maus procedimentos. O Governador Serra tem a oportunidade de mostrar, num caso, que é uma pessoa grande, por arrepender-se e desculpar-se e no outro caso, de mostrar que zela pela segurança, e sensação de segurança, da população mais que eventuais compromissos políticos, censurando ou afastando o coronel, ou os dois.
É isto.
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Sugestão musical: Sentinela, na versão com Milton Nascimento, Nana Caymmi e Coro dos Monges Beneditinos.
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Este post segue às duas da madrugada, portanto, Boa Noite!