Livros

Qual é o teu livro?

Difícil pergunta para talvez impossível resposta.  Acho que todo mundo já se perguntou qual livro levaria para uma ilha deserta onde ficaria para sempre. Bom, como esta última pergunta pressupõe que pode-se escolher o livro, eu levaria “Como Sair De Uma Ilha Deserta Em Dez Lições Fáceis e Infalíveis”. Nem é meu favorito. Se não estivesse escrito, tudo bem, eu espero, naufrago assim que sair e junto com a primeira edição.

Mas, e a pergunta séria: qual é o “teu” livro?  Respondendo, de outra forma e chegando no limite, diria: “Em Busca do Tempo Perdido”  do Marcel Proust e, tudo, a obra completa - mesmo, tudo, desde ficção, passa pela poesia e pelos ensaios, segue pelos artigos, prefácios, entrevistas, tudo – do Jorge Luis Borges (até suas declarações sobre política argentina que não concordo mesmo, como muita gente que ama sua obra), Pra ser preciso, deixa falar que, ao que eu saiba, não há edição nem na Argentina nem em lugar nenhum do mundo de tudo que ele escreveu reunido numa mesma coleção. Volta e meia aparece alguma revista ou jornal com entrevista exclusiva que ninguém sabia até então. Então, por obra completa refiro-me à edição com o título “Obras Completas”, em quatro volumes tipo tijolo e mais o que vou cavocando por aí.

Não há nenhuma espécie de ordem de preferência em colocar o “Em Busca…” antes do Borges. Não dá pra colocar os dois ao mesmo tempo no papel, mas dá na mente.

Borges. Para além do fantástico de suas ficções – no geral, não só seu livro com este nome -, das luzes que ele faz acenderem dentro da gente com seus versos, seus contos, suas dissertações, ele é e foi pra mim um grande professor, autor de frases que nem aquelas que voce encontra e diz: putz, é isso mesmo! Como é que ele sabia o que eu penso?

Deixa citar só dois vislumbres fantásticos que ele teve, não estão como ele os redigiu e infelizmente não me lembro exatamente em quais de seus livros li, meu palpite é que são de algumas de suas crônicas. Não são as frases originais traduzidas, é só a essência das idéias.

Todos os livros já escritos e sendo escritos e que serão escritos, de todos os autores de todos os tempos passados, presentes e futuros formam um único e magnífico livro.

Estamos acostumados a entender que o tempo corre numa linha, sendo que o passado já ocorreu e o futuro está em aberto. O tempo na verdade corre ao contrário do que nos indicam nossas sensações. O futuro já aconteceu. É o passado que está em aberto e que irá acontecer. Nós na verdade já vivemos o futuro, só que esquecemos o que aconteceu. E  isto que chamamos passado, nós conseguimos prever.

Borges não acreditava literalmente no que escrevi acima. Apenas nos contava estas coisas e tantas mais que nos mostravam, em última análise, que tudo é possível, não há limites para a imaginação. E talvez para a realidade.

Agora tem o lado de sua humildade. Dois pequenos exemplos: em seu primeiro livro, poemas, “Fervor de Buenos Aires”, tem a dedicatória para nós e do seu prefácio geral à “Biblioteca Personal” cito literalmente dois trechos.

Do “Fervor…” :

                                  ” A QUIEN LEYERE

Si las páginas de este libro consienten algún verso feliz, perdóneme el lector la descortesia de haberlo usurpado yo, previamente. Nuestras nadas poco difieren; es trivial y fortuita la circunstancia de que seas tú el lector de estos ejercicios, y yo su redactor.”

Do prefácio geral à “Biblioteca Personal”:

Primeiro trecho : “(…). “Que otros se jacten de los libros que les ha sido dado escribir; yo me jacto de aquellos que me fue dado leer”, dije alguna vez. No sé si soy un buen escritor; creo ser un excelente lector o, en todo caso, un sensible y agradecido lector.(…)”.

Tem muita coisa, quase tudo, do Borges em português. Está saindo, de novo, uma edição completa de sua obra, acho que é pela Companhia das Letras, não tenho certeza. Inclusive sua última companheira, Maria Kodama, esteve no Brasil há poucos meses por conta do lançamento desta edição. Mas há alguns textos que valeria mesmo a gente se esforçar para ler no original, tem coisa intraduzível (refiro-me à tradução que pega o sabor. É algo como o sotaque. Quem já escutou aquele “meu rei” baiano sabe o que eu quero dizer. Tem coisas que nem aquele samba do Noel; “Não Tem Tradução”).

Mais para o futuro a gente conversa sobre o Proust? (além do livro, adoro falar o nome dele, acho tão musical, e completo ainda fica mais lindo, Marcel Proust).

Voltemos pra nossa questão inicial e talvez, no segundo trecho que falei que ia citar, do Borges, tenha uma ferramenta para nos ajudar na escolha. E talvez também, pra ser realista, este escolher um livro pra levar pruma ilha deserta é o que fazemos a todo instante em que pegamos um livro pra ler, não é? Ler exige solidão – não sei se voces concordam ou conseguem ler de outra maneira, eu não consigo. E não dá pra saber se o próximo vai ser  ”o”  livro, tomando o lugar do anterior.  Só ao final da sua leitura.  Ou ao nosso próprio final.  Então, como saudação aos livros lidos e amados e aos próximos que o serão, Borges de novo, da mesma obra citada:

“   Un libro es una cosa entre las cosas, un volumen perdido entre los volúmenes que pueblan el indiferente universo, hasta que da con su lector, con el hombre destinado a sus símbolos. Ocurre entonces la emoción singular llamada belleza, ese misterio hermoso que no descifran ni la psicologia ni la retórica. “La rosa es sin por qué”, dijo Angelus Silesius; siglos después, Whistler declararía “El arte sucede.”   Ojalá seas el lector que este libro aguardaba. “

Qual é o teu livro?

                                                                                                                                             

 

 

 

 

 

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