Para Cantar Hoje

July 13, 2008 by uirapuru

Hoje
Eu quero a rosa mais linda que houver
E a primeira estrela que vier
Para enfeitar a noite do meu bem
 
Hoje
Eu quero paz de criança dormindo
E o abandono de flores se abrindo
Para enfeitar a noite do meu bem
 
Quero a alegria de um barco voltando
Quero ternura de mãos se encontrando
Para enfeitar a noite do meu bem
 
Ah! eu quero o amor, o amor mais profundo
Eu quero toda beleza do mundo
Para enfeitar a noite do meu bem
 
Ah! como este bem demorou a chegar
Eu já nem sei se terei no olhar
Toda ternura que eu quero lhe dar

Dolores Duran

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Hoje
Trago em meu corpo as marcas do meu tempo
Meu desespero, a vida num momento,
A fossa, a fome, a flor, o fim do mundo…

Hoje
Trago no olhar imagens distorcidas
Cores, viagens, mãos desconhecidas
Trazem a lua, a rua às minhas mãos,

Mas hoje,
As minhas mãos enfraquecidas e vazias
Procuram nuas pelas luas, pelas ruas…
Na solidão das noites frias, por você

Hoje
Homens sem medo aportam no futuro
Eu tenho medo, acordo e te procuro
Meu quarto escuro é inerte como a morte

Hoje
Homens de aço esperam da ciência
Eu desespero e abraço a tua ausência
Que é o que me resta, vivo em minha sorte

Sorte…
Eu não queria a juventude assim perdida
Eu não queria andar morrendo pela vida
Eu não queria amar assim como eu te amei

Taiguara

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Bom domingo!

Uma canção para um encontro de sexta à noite

July 11, 2008 by uirapuru

Be careful
It’s my heart
It’s not my watch you’re holding
It’s my heart
It’s not the note I sent you that you quickly burned
It’s not a book I lent you that you never returned

Remember
It’s my heart
The heart with which so willingly I part
It’s yours to take to keep or break
But please before you start be careful
It’s my heart
It’s yours to take to keep or break
But please before you start be careful
It’s my heart

Irving Berlin

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Sugestão musical: “Be Careful, It’s My Heart”, com Bola de Nieve.

Edição Extraordinária

July 11, 2008 by uirapuru

Da série “Meros e Tolos e Inúteis Devaneios Tolos a Me Torturar”: termina o “Jornal Nacional” e William Bonner declara: “mais notícias logo mais, após por toda a minha vida, no “Jornal da Globo”.
Devaneio: puxa, vou ter que esperar toda a vida dele pra ter mais notícias? E será logo mais? Nossa, ele sabe que é um doente terminal.  Será?  Nada.  Vai se matar.  Suicida malvado!  E a Fátima nem tchuns pro assunto! Ou ele vai ficar a vida inteira dando mais notícias, começando logo mais?  Cara grudento.  Ei, mas ele falou “após”, eu ouvi!  Dúvidas, dúvidas.  Ih, não quero mais confusão, vou voltar para a internet, este paraíso virtual.

Historieta

July 10, 2008 by uirapuru

Ás vêzes somos testemunhas, ou mesmo protagonistas, de pequenos ou grandes acontecimentos que, se a gente parar pra pensar, só teriam mesmo lugar na vida “real”. Nenhuma obra de ficção os mencionaria, seja de boa ou de má qualidade, seja de que gênero for.
Isto vale, nesta teoria, para o que nos faz rir ou chorar. Para o que nos faz pensar: isto é poesia, isto é o horror.
Temos conosco nesta nossa bagagem emocional e intelectual alguns ítens para nós tão importantes que os guardamos a sete chaves (sabia que um dia usaria esta expressão num texto, yeahhhhh!) e, pelo precioso que são, a ninguém os mostramos, seja por medo da opinião pública, isto é, da outra pessoa, zombar de nós expondo-nos ao ridículo ou, pior, não zombar mas destruir estes nossos valiosos tesouros. Dentre estes ítens estão alguns dos episódios do primeiro parágrafo.
Este temor de passar vergonha é universal. Todo mundo vai se lembrar de “O Rei Leão”, quando o Simba, então ainda no exílio, está deitado olhando as estrelas e comenta algo que ouviu do pai. Seus dois companheiros de jornada riem-se dele e Simba retrai-se, nega a história, fica envergonhado. Mas que lindo o que ele havia ouvido!
Assim é com nosso pequeno álbum mental de recordações. Relutamos em compartilhá-lo, tememos que não será apreciado por outros olhos com os nossos olhos. É um misto de prudência e egoísmo o que nos move.
Sempre há o risco de a gente contar uma história, até tentando disfarçar que ela para nós é importante, até deixando a pessoa ouvinte à vontade para ignorá-la pois não destacamos o quão ela nos é importante, sempre há o risco de ouvir: só isso?
Por muito tempo eu e minha geração vivemos estes dilemas. Digo minha geração, minha geração brasileira, americana, porque aqui neste continente, neste país, crescemos com um “contrato social” diferente do de muito países. Não estou me referindo a diferenças econômicas e sociais centenárias, estou me referindo diretamente às ditaduras militares que assolaram as Américas pelas décadas de 60,70,80. Quem nasceu no fim dos 50, como eu, não passou um dia sequer, não passou meia-hora numa escola, ginásio, colégio, faculdade que não fosse sob o tacão da ditadura militar, aqui no Brasil. Que isto tem a ver?
Tem que a necessidade de falar, a incontrolável necessidade de falar, de cantar, de escrever, de se expressar enfim, depois que esta geração viu que não estava mais amordaçada, tinha que ser saciada. Começamos a recuperar o tempo perdido, sem freio nem limites. Passamos a falar tudo o que pensamos, e nem tudo o que pensamos é interessante. Daí vieram as topadas. E portanto uma certa retração. Incrível, não? Toda uma geração está reaprendendo a falar.
Não me aceitem literalmente. Creio não ser necessário lembrar que é apenas mais uma teoria.
Voltando à minha geração e seu tempo de dilemas sobre mostrar seus tesouros, cada qual teve uma resposta. Houve quem se calou, pra que submeter-se à dor de ver estes tesouros achincalhados? Houve quem entendesse que maior que qualquer tesouro escondido era o tesouro da liberdade de poder mostrar tesouros, sempre poderia juntar-se mais, se aqueles sumissem. Houve também quem preferisse acreditar que aqueles tesouros só teriam sentido vistos.
Sei lá em que categoria me enquadro. De minha parte, vou pelo instinto. E é isto que farei agora, compartilhando com vocês um de meus tesouros.
Não beira o inacreditável, para mim, porque para mim é para lá de inacreditável. É curta, é simples, é bela esta história, ouvi-a de meu pai, na minha adolescência. Devo ter perguntado pra ele, depois que me contou da primeira vez, umas vinte sobre sua veracidade. Sempre confirmou. Cabe inteira no parágrafo seguinte.
Meu pai era solteiro, isto foi na década de 50. Um seu companheiro de fábrica casou-se. No dia seguinte foi buscar seu pagamento mensal na fábrica e contou pros colegas que, pra comemorar o casamento, como lua-de-mel, ele e a esposa tomaram o ônibus “Estações”, circular que saía da Estação da Luz, passava pela Estação Sorocabana, Estação Roosevelt, dava uma volta pelo centro e retornava à Estação da Luz, quarenta minutos de viagem.
Esta é a história.
Não sei como estão agora os noivos, nunca soube, sequer se estão vivos ou, se não, quando deixaram de estar. Se deixaram filhos, se continuaram casados. Não sei nada deles a não ser que aquele ônibus, comigo, nunca mais parou de circular, está sempre com eles e os vejo. Vejo-os arrumados com seu máximo possível, me encantam seus olhares ternos, ouço seus projetos. Gostaria tanto de algum poeta estar junto comigo para colocar em palavras o que só sei sentir, talvez não doesse tanto, de tão belo.
Caras, digo pra vocês, a melodia e a letra de “Gente Humilde” me vêm toda vez que me lembro desta lua-de-mel.
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Sugestão musical: “Clube da Esquina nº2″, com Milton Nascimento; “Dio Come Ti Amo”, com a Gigliola Cinquetti e “Pro Dia Nascer Feliz”, com Cazuza & Barão Vermelho.

A Day In The Life II

July 9, 2008 by uirapuru

   -  Chamada a cobrar. Para aceitá-la continue na linha após a identificação.
Traariiiiiiróóóóóóóóó.
Há os dez segundos habituais de braço-de-ferro, ou de silêncio-de-ferro. Ela sempre espera eu falar, eu sempre espero ela falar. Ela é mais adulta que eu e começa:
   -  Papai? ( o silêncio é o suficiente para ela me identificar, todos os demais humanos da casa perdem pra ela)
   -  Oi, querida.
   -  E aí, mano?
   -  Digue, meu.
   -  Papai, você conhece algum chaveiro por aqui?
  -  Meu bem, aí tem mais chaveiros que fechaduras. Maz faz assim, pergunta pro zelador. Se ele não souber, o que duvido, desce a Peixoto Gomide dois quarteirões, entra  à esquerda e vai até a Augusta. Vai descendo em direção ao centro. Acho que você não vai andar quinze minutos até aparecer algum.
   – Õuquei. E deixa perguntar: onde era aquele sebo que a gente foi que eu comprei os elepês?
   – Ficava na Brigadeiro Luis Antônio, bem no comecinho. Toda hora aí em São Paulo tem sebo que fecha e tem sebo que abre, não sei se aquele ainda continua lá.
   – Ah, tá.
   – Você está querendo ir lá hoje?
   – Não, não. É que a Kelly vem pra São Paulo no fim da semana e pediu pra gente passear em algum sebo, daí lembrei daquele.
   – Ela gosta de sebo também?
   – Ela gosta de livro. Daí, de tanto ela ouvir falar dos sebos de São Paulo, quer conhecer, ela não conhece nenhum.
   – O que ela gosta de ler? Digo, tem algum autor, algum gênero que ela gosta mais?
   – O que ela mais gosta é de poesia. O Vinícius de Morais ela sabe de cor.
   – Tem um verso dele que eu aposto que ela não sabe.
   – Papai…
   – Sabe qual é? 
   – Papaaiii…lá vem…
   – Não, é assim: filhos, melhor não tê-los; mas, se não tê-los, como ensaboá-los? Depois ele mudou.
   – Ah, certo, certo, vou falar pra ela.
   – Ela precisa saber disto. Mas, veja, não precisa saber que fui o descobridor. Diz que foi você mesma.
   – Tchau, papai.
   – Tchau, bem.
   – Beijocas.
*************
   – Ôpa.
   – Boa tarde. Tudo bem com o senhor?
   – Tudo em ordem.
   – Assino aqui, né?
   – Isso.
Enquanto tento equilibrar a prancheta e o pacote que ele já me entregou no braço esquerdo, passo o cigarro da mão direita pra boca e pego a caneta. Está um azul maravilhoso no céu e até o cinza das calçadas está alegre, uma tarde mesmo especial.
Este carteiro não é o mesmo de ontem. Devolvo a prancheta e a caneta.
   – O senhor lê bastante, né?
   – Como o senhor notou?
   – Ah, sempre que eu venho aqui é pra trazer estes pacotes. O senhor gosta de ler, então?
Na hora este “então” provocou-me um certo calafrio, mas vou preferir pensar que faz parte de seu estilo, digamos, detalhista e de algum século passado de falar.
   – Sim, sim. Puxa, sabe que o senhor é o primeiro que me fala isso?
Sorriu escancaradamente talvez satisfeito por ver reconhecida sua habilidade dedutiva ou para disfarçar que havia percebido minha deslavada mentira.
   – Até logo, boa tarde.
   – Obrigado, até logo, boa tarde.
**************
   – Alô?
   – Boa tarde. Com quem estou falando?
   – Mauro.
   – Senhor Mauro, meu nome é Cíntia e estou falando em nome do Grupo de Apoio ao Combate às Vítimas de X, está tudo bem com  senhor?
   – Tudo.
   – Senhor Mauro, o motivo de nós estarmos fazendo este telefonema é para estar pedindo uma contribuição pequena para ajudar nossa luta e estamos telefonando para todas as pessoas de coração bondoso como o senhor para que possam estar contribuindo. O senhor conhece nosso trabalho?
   – Na verdade já ouvi alguma coisa. Veja, sei que seu tempo é valioso e deixa te falar que não dá pra eu contribuir com nada.
   – Mas senhor Mauro, tenho certeza que assim que o senhor ouvir tudo que fazemos este seu coração bondoso vai nos ajudar.
   – É Cíntia seu nome, né?
   – Sim, senhor Mauro.
   – Cíntia, deixa te falar, acho que houve algum engano. Meu coração não é bondoso, ele é malvado. Além disto, estou completamente duro, endividado. Vamos nos despedir agora como bons amigos, mas de antemão te aviso que sou casado.
   – Mas nã…O grupo de apoio ao combate às vítimas de X agradece e lhe deseja uma boa tarde.
   – Boa tarde pro grupo e em especial para você.
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Sugestão musical:a trilha sonora de “Intriga Internacional”, de Bernard Herrmann (dá pra achar na rede com o título original, “North by Northwest”); “Una Lacrima Sul Viso”, com Bobby Solo; “God bless the child”, com Billie Holiday.

A Day In The Life

July 7, 2008 by uirapuru

   -   Papai, a que horas o pessoal da mudança vai chegar?

   -   Está marcado pras dez da manhã, filha.

   -   Eles vêm mesmo neste horário? Será que vão demorar muito?

   – Olha, acho que não. Tanto pra carregar como pra descarregar vai ser rápido, vocês têm pouca coisa. O que pode demorar mais é o trânsito. Eles vão ter que ir da Vila Mariana até Cerqueira César, mesmo com as férias escolares acho que talvez complique um pouco, não sei. Você já arrumou as coisas pequenas, certo?

   – Quase. Você acha que até meio-dia já terminaram?

  – Espera. Como assim “quase”? O que falta?

  – Ah, o básico.

  – Sim. O básico. Olha só, se este básico ficasse pronto hoje as coisas sairiam mais rápido amanhã. O quem tem de especial meio-dia? De qualquer maneira, acho que meio-dia não terminam não, não creio.

 - Nada não. É que, você sabe, o A. só tem a têrça de folga e a gente estava querendo assistir Kung-Fu Panda. Ele só pode ir se for no comêço da tarde porque depois ele tem que tomar conta do irmão.

 - Puxa, que problemão. E que vida atribulada ele tem, não?

 - Papai, me poupe.

 - Ah, não ligue pra mim, eu me emociono facilmente. Bom, sugiro voces marcarem o cinema pra outro dia, pelo que estou vendo este filme não vai sair de cartaz tão cedo.

 - É que eu precisava saber com certeza pra marcar com ele. E até pra pedir uma grana pra você. Estou sem e ele ainda não recebeu.

 - Certo, certo. Bom, já que nós concluímos que vocês não vão ao cinema amanhã então também já resolvemos o problema do dinheiro, concorda?

 - É que

 - Filha, estão tocando a campainha. Depois a gente continua. Tchau, beijo.

 - Beijocas.

*******************

 - Boa tarde.

 - Senhor Mauro?

 - Sim.

 - Mais uma encomenda aqui pro senhor.

O “mais” não me passou desapercebido.

 - O senhor coloca o nome aqui, por favor.

E me dá uma prancheta, com uma folha cheia de nomes e enderêços, e uma caneta. Enquanto escrevo, o senhor que é um dos senhores que entregam encomendas por Sedex quando os Correios estão em greve, trajando o bonito uniforme dos carteiros – azul e amarelo, tal qual as cores de São José dos Campos (uma das três coisas boas desta cidade) e do Boca Juniors (se bem que estos dicen “azul y oro”)  -  olha o pacote que me entrega em seguida e diz:

   – O senhor sempre recebe estes pacotes, né? O senhor deve ler muito.

   – Ah, bom, sim…

   - Eu não gosto muito não.

   – Não?

   – Minha filha gosta.  Ela gosta de ler.  Ah, eu gosto de gibi, gibi eu leio bastante.

  – Ah, certo.

  – Bom, até logo.

  – Até logo, boa tarde. 

Mais um daqueles curtíssimos diálogos surgidos do nada que vão ficar na minha memória para sempre.

**************

   -  Alô?

   – Boa tarde! Aqui é do Banco X, meu nome é Luciana. Com quem estou falando?

   – Mauro.

   – Lauro?

   – Mauro.

   – Lauro?

   – Mmmmaaaaauuuurrrrrrooooo.

   – Lauro?

   – Sim. Lauro.

   – Eu gostaria de falar com o Senhor Mauro, ele está?

   – Não. Adeus.

   – O Banco X agradece sua atenção, tenha uma boa tarde.

****************

Sugestão musical: “The Way You Look Tonight” com Fred Astaire, quaisquer das gravações (lindas demais são também as que estão nas trilhas sonoras de “O Pai da Noiva”, na refilmagem com o Steve Martin e a daquele delicioso “Peter’s Friends”, não me lembro como passou no Brasil, é sobre a reunião dos amigos do Stephen Fry, que vão visitá-lo, dentre estes a Emma Thompson, o Kenneth Branagh e o Hugh Laurie); “Esquadros”, com a Adriana Calcanhoto; “Twist and Shout”, com The Beatles.

Perguntas

July 6, 2008 by uirapuru

Morávamos em São Caetano do Sul. Uma das amigas de minha irmã, de nome Ivani, e colega de trabalho, veio lhe contar dos seus problemas sentimentais, lá durante o expediente. Estavam empregadas por uma enorme concessionária de automóveis lá em São Caetano mesmo.
A família da Ivani vivia como se fosse numa ópera. Tédio e monotonia passavam longe daquela casa.
A Ivani estava noiva, contrariando sua mãe, que não suportava o provável genro. Bem, então certo dia a Ivani comunica sua mãe que iria se casar.
Imaginem a cena. A mãe, aos gritos, disse: “Você casa com ele e eu te mato no mesmo dia! Eu te mato!”.
Aturdida, a Ivani vai conversar com o noivo. E, mesmo não acreditando que sua mãe cumprisse a ameaça, sugere pra ele que talvez devessem esperar um pouco, pra não contrariar ainda mais sua mãe, com o tempo ela iria aceitar.
Como reage o pretendido? Bem, ele também vivia numa ópera. Reagiu assim:
” – Escute bem. Não aguento mais tua mãe. Vou me casar com você e pronto. E vai ser pra já, o quanto antes. E se você pensa que você vai me enrolar, que vai ficar me cozinhando, fique sabendo que quem vai te matar sou eu. Se ela está exagerando eu não sei, só sei que eu não estou.”
Que legal, não?
A Ivani, acuada, vai desabafar com minha irmã.
Tudo isto estou contando conforme aconteceu, não estou aumentando nem diminuindo nada.
Minha irmã ouve tudo, ouve também a pergunta de Ivani sobre o que deveria fazer e, as duas sem tirar os olhos da papelada de automóveis em que estavam mergulhadas, responde:
” – Bom, você vai morrer de qualquer jeito. Então pelo menos morre casada.”
Isto aconteceu há uns trinta e poucos anos. Fui me lembrar na noite passada, por acaso, veio do nada durante alguns momentos de insônia. Ah, lembrei-me também de duas perguntas interessantes, que daqui a pouco lhes faço.
Se você que está lendo estivesse no lugar de minha irmã, o que responderia? Só na noite passada me ocorreu perguntar-me que resposta eu mesmo daria. Compartilho convosco.
Diria assim: “Ivani, não se case. É bem certo que você estará morta, mas veja, isto acontecerá de toda maneira. Acontece que se você se casar, além de deixar um viúvo e uma mãe desfilhada, vai tornar esta uma assassina. Por outro lado, se você morrer solteira, o assassino não fica viúvo. Além do quê você diminuirá o sentimento de culpa deste maledetto porque uma coisa é matar a noiva e outra bem diferente e pior é matar a esposa. E você não obriga sua mãe a te matar. Você estará sendo uma boa filha. Se por acaso você estiver tomada por algum sentimento torpe e vil de vingança, deixa com tua mãe que ela resolve o assunto, se a polícia não resolver antes. E mais, se tudo isto acontecer mesmo, na certa se não for tua mãe alguém da tua família vai acertar este teu pombinho e é provável que alguém da família dele se vingue. Começa uma nova história de vendettas, mama mia! Olha que legal! Você vai dar motivo pra todo mundo que te ama e que aqui ficará pranteando tua memória se divertir, fugindo das balas perdidas ou punhaladas no meio da noite. E é capaz de virar novela de tv. “
Gente, seria uma boa sugestão?
Ah, em tempo: a Ivani se casou. Deu um casal de netos pra mãe, que está viva e mora com eles.
“Eles” são a Ivani e seu segundo marido. O primeiro, o da ópera, descobriu que não gostava da Ivani depois de dois anos de casados. Minha irmã não sabe se este segundo marido e a sogra se dão bem. Não quer perguntar.
*****
A primeira das duas perguntas é feita como se estivéssemos conversando pessoalmente. Pergunto:
” – Você já comeu pão com mamão?”
O que você responde?  Responda agora.  Já respondeu?  Bem, minha vez:
” – Ah, eu consigo. Não preciso das duas mãos.”
A segunda pergunta é pra quem já leu história em quadrinhos da turma do Maurício de Souza.
Quem fala errado, a Magali ou o Cebolinha?
Se você respondeu Magali você acertou. O Cebolinha fala “elado”.
*****
Sugestão musical para este domingo: “Syrinx”, de Claude Debussy, que seja apenas em solo de flauta e não nas versões eletrônicas ou para orquestra, teclados, etc… E “Aquarium”, do Carnaval dos Animais, de Saint-Saens, na versão para orquestra.
As duas, como algumas outras músicas, alguns trechos de filmes, alguns trechos de livros, alguns quadros, algumas paisagens e alguns momentos, são portais por onde você passa pra chegar em outras dimensões. Mas isto é tema pra outro dia.

En Voyage

June 17, 2008 by uirapuru

Em viagem e sem saber como mandar um cartão postal via blog pra voces, em vez disso conto uma política de prêços interessante que pratica um estabelecimento comercial desta cidade onde ora me encontro.
Estava no cartaz: “Pão com Manteiga: R$ 0,80″. E, abaixo, “Torrada: R$ 1,00″.
Resolvi interrogar o atendente.
 - Por favor, amigo…É só curiosidade. Um pãozinho com manteiga é um pãozinho inteiro, e ainda vai manteiga. Essa torrada custa mais e, me diz, é de um pão inteiro?
 - Não, é uma fatia.
 - Sim?
 - É pão Pullman.
 - Ah…Obrigado.
Ainda não havia nenhum mercadinho aberto, por perto, para eu investigar a quantas anda o prêço dum pacote de fatias de pão. Pullman.

Sugestão musical: “A Estrada e o Violeiro”, Sidney Miller, com ele e com Nara Leão. Alguém se lembra?
Violeiro Sidney: “(…) Minha estrada, meu caminho, me responda de repente, se eu aqui não vou sozinho, quem vai lá na minha frente?”
Estrada Nara   : “Tanta gente tão ligeiro que eu até perdi a conta, mas te afirmo violeiro, fora a dor que a dor não conta, fora a morte quando encontra, vai na frente um povo inteiro (…)”

Bom dia.

Fim do Domingo

June 16, 2008 by uirapuru

Ganhei um presente no fim do domingo. A Telma Cristina conseguiu descobrir que canções são aquelas que cantarolei com letra errada e desafinado. Ainda mais, mandou links onde estão as gravações e também mandou as letras. Viva a Telma!

As duas são interpretadas por um grupo que assina “Fala Mansa”. A primeira vai sem o nome dos autores pois não sabemos, é a do risonho e ganhou as ruas com o vendedor de vassouras. A segunda, do sonhador,  nasceu pro mundo sob o patrocínio de “Rastapé” e faz sucesso acompanhada de churros. 

Ladies and Gentlemen, enjoy it!

Rindo à Toa

Tô numa boa
Tô aqui de novo
Daqui não saio
Daqui não me movo
Tenho certeza
Esse é o meu lugar
Ah Ah!…Tô numa boa
Tô ficando esperto
Já não pergunto
Se isso tudo é certo
Uso esse tempo prá recomeçar
Ah Ah!…Doeu, doeu, agora não dói
Não dói, não dói
Chorei, chorei
Agora não choro mais…Toda mágoa que passei
É motivo prá comemorar
Pois se não sofresse assim
Não tinha razões prá cantar…Há Há Há Há Há!
Mas eu tô rindo à toa
Não que a vida
Esteja assim tão boa
Mas um sorriso ajuda a melhorar
Ah Ah!…E cantando assim
Parece que o tempo voa
Quanto mais triste
Mais bonito soa
Eu agradeço por poder cantar
Lalaiá Laiá Laiá Iê!…

 

Colo de Menina

 

A lua quando brilha fala de amor
No gingado desse xote sinto teu calor
À noite acordado sonho com você, iê, iê, ê, ê
O som ligado e fico perturbado
Sem ter o que fazerE tento sair dessa rotina
Não quero, não, colo de mamãe
Só quero colo de menina
E pouco a pouco conquistar teu coraçãoNum outro dia a gente se vê
Vou para um lugar que lembre do sertão
E canto xote pra te convencer
Vou te ensinar como viver é bomE amar até, amar até
Até quando Deus quiser
E amar até, amar até
Até quando os dois quiser        

 

Ôxe! Xote arretado, bom demais da conta, seu! Isso é da gota serena! Telma, beijo. Inté, minha gente.
(Ah, não estranhem estas linhas finais seguirem na cor verde. Cet idiot não conseguiu fazê-las ficar em preto. Bem, façamos de conta que é uma homenagem à natureza. Viva o verde!)
Bom dia.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Domingo

June 15, 2008 by uirapuru

Não sei se onde voces moram é assim, se um dia foi assim. Por onde morei – quatro meses em São Gabriel da Cachoeira, quatro anos em Brasília de Minas e vinte anos em São Paulo – não me lembra ter visto estas quase sempre divertidas figuras. Será que é só em São José dos Campos ou só agora é que prestei atenção?
Vendedores de coisas em carros de som.
Há também os que vêm durante e apenas nos demais dias da semana, mas os mais interessantes são os dois que aparecem aos domingos. Durante a semana, não importa quão paramentados sonoramente estejam os concorrentes, reina soberano o carrinho do sorveteiro, empurrado por um velhinho que usa chapéu e que aciona a cada dez passos a buzina, tão desafinada, aguda, sem fôlego, triste, patética. Bonitinha.
Domingo à tarde vêm meus favoritos. Daqui a pouco dá a hora do primeiro, são duas e meia da tarde agora. Nunca o vi, sempre o amei. Sempre cai como uma luva, quando a luva cai bem. Que nem no “Bolero”, de Ravel, voce começa a ouvir baixinho e depois a coisa vai num crescendo.  A canção não sei de quem é, não sei quem canta, não sei o nome. Sei cantar o trechinho que escuto, e completo com palavras que invento pra poder ficar cantando.
É assim: “Hahahahahahaha, mas estou rindo à toa, ai que vida boa, e vai melhorar, ááááááá…”
Voces conhecem? Do restante não dá pra decifrar nada porque o equipamento deste meu amigo é ruim, que nem o do outro de quem falo a seguir. Mas ele não toca muito, interrompe a programação musical e informa pra todo mundo: “Olá, freguesia! Está chegando o carro de produtos de limpeza direto na rua de sua casa! Temos vassouras, temos detergentes, temos panos de limpeza! É só chegar, freguesa! É o carro de produtos de limpeza que está passando em frente da sua porta!”. Aí ele conta que mais coisas que ele tem, e põe a música de novo.
Passa uma vez, eu que sou fã sei que só tenho uma chance pra me deleitar, se perder é só domingo que vem.
Bom, se este de que falei é um Shopping Center do Lar ambulante, com música ambiente, o outro que vem por volta das cinco da tarde, é a praça de alimentação. Ele vende churros. Dá umas três voltas no quarteirão, tenho pra mim que o motorista está paquerando alguma garota das redondezas, este mercado que é nosso quarteirão não é tão consumidor assim. Sua canção, que também não sei nada a não ser o que ouço com ele, é assim (lembro que vou completando com o que invento o que entendo): “Saia dessa rotina, não quero colo de mamãe, só quero colo de menina, para ganhar seu coração”. Daí vem o refrão: “Igarapé, igarapé, até onde Deus quiser, Igarapé, Igarapééééééé,…”. Eis que chega a hora de anunciar o produto: “Olá, criançada! Os deliciosos churros Edson chegaram! Venha saborear! Churros Edson! Temos churros com doce-de-leite! Temos churros com chocolate! Temos diversos sabores de churros! Churros Edson! Sim, estes são os verdadeiros Churros Edson! Peça pra mamãe! Peça pro papai! Chuuuuuuuurros Edson!” E recomeça a canção do sujeito que não quer o colo da mamãe.
Diferente do “Bolero”, que termina com a orquestra à toda, as canções destes dois vão se extinguindo aos poucos, à medida em que escolhem outros quarteirões ou suas casas.

Muito, muito melhor que os telefonemas das operadoras de telemarketing, embora estes também tenham seu encanto.

                                  * * *

Sugestão musical: “Um dia de domingo”, com Gal Costa e Tim Maia, o Google me informa que é de Michael Sullivan e Paulo Massadas.